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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Primer - Shane Carruth


Aviso: talvez seja melhor ver o filme antes de ler sobre ele.
Primer tem um roteiro base simples, que você já viu em outros filmes: a viagem no tempo. Conhecemos as possíveis implicações que isto traria caso sua possibilidade se concretizasse. As implicações são conhecidas e variadas, desde não cruzar com seu duplo e interferir na ordem das coisas, até a impossibilidade de ir para o futuro, já que ele ainda não aconteceu.
O que surpreende, é seu orçamento de sete mil dólares e a forma com que a história é contada. Shane Carruth é graduado em matemática e trabalhava no desenvolvimento de softwares antes de iniciar sua carreira cinematográfica, e isto faz diferença na forma com que o filme é feito. A primeira coisa, e para mim o ponto mais forte, está no fato de não haver simplificação nos diálogos, especialmente entre os dois protagonistas, mesmo quando eles discutem o aparelho que estão desenvolvendo. A descoberta é por acidente, e o acidente torna crível a descoberta dos dois amigos, eles acreditavam estar desenvolvendo algo como um redutor de peso. Como aprendemos na escola, o peso se altera alterando a gravidade e uma distorção no espaço-tempo distorceria a gravidade, logo mudaria o peso. Acidentalmente, o que ocorre no aparelho desenvolvido pelos dois amigos em sua garagem, é uma curta viagem no tempo, sempre 6 horas atrás no passado.
Em princípio a ideia era aproveitar esta vantagem para ganhar um bom dinheiro na bolsa de valores todos os dias, já que os dois são engenheiros em empresas privadas de desenvolvimento de tecnologia e sabem que o mais certo é serem demitidos quando sua vitalidade diminuir e seu salário aumentar, ali pelos 40 anos. São coisas como essa, que aparecem de soslaio ao longo do filme, que dão o toque de real para ele, que muitas vezes falta em outros filmes sobre viagem no tempo. Para reforçar esse ar de realidade e seriedade que temos ao longo de todo o filme, a estética sempre preza uma imagem complicada, pouco clara, confusa, nos produzindo um estado de pré-viagem com o tempo. A confusão narrativa é proposital, tomar contato com outras temporalidades que não a do presente, sempre nos produz uma sensação das mais estranhas – e como historiador devo dizer, das mais prazerosas também.
Desta forma, são pontos como esse, que para além do baixo orçamento de Primer, que usou e abusou de amigos e conhecidos de Carruth como atores e figurantes, bem como suas casas suburbanas, que tornam o filme interessante, conseguindo ser sério, nos prender e o melhor de tudo, não nos tratar como completos imbecis frente à tela. Afinal, se era preciso tratar de um tema já tão batido como a viagem no tempo, era necessário trazer algo de novo, Shane Carruth conseguiu.

 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O mal-estar na civilização - Sigmund Freud


Li este clássico de Freud para pensar melhor o processo civilizador de Elias. No segundo volume da obra homônima, as referências de Elias para com o campo da psicanálise eram claras e ajudavam a dar conta de sua problematização. Em larga medida, ambos os autores querem entender, por caminhos e objetivos distintos, como aquilo que chamamos de barbárie pode ocorrer, mesmo em espaços que constituem aquilo que tranquilamente chamamos de civilização. Ambas as obras tem próximos de si a ascensão nazista, o que no caso de Elias será drástico, ao ponto de seus pais serem mortos graças a perseguição aos judeus.
De alguma forma Freud vai prestar atenção nas questões que estariam para além do indivíduo, e que acabam o cercando e criando condições e regras para além de si, o que em largas medidas seria a sociedade. Desta forma, um entrelaçamento entre Eu, Id e Super-eu faria sua dinâmica. Tendo o sujeito que aprender a conviver num equilíbrio entre suas pulsões, seus desejos imediatos, e as questões de freio, como a moral e as barreiras ou regras sociais.
Uma crítica ao ideal de civilização, perseguido loucamente, se forma. Havendo o Homem ao mesmo tempo construído maravilhas sem fim graças a seu processo civilizador, ao mesmo tempo temos uma questão psíquica difícil de lidar, e que pode gerar absurdos. Sem apontar uma saída, sem passar nenhuma receita, Freud nos adverte de que se mantivermos indivíduos muito sufocados, sob um enorme peso da civilização, isso gerará uma disfunção entre as três esferas do sujeito, mas por outro lado não podemos querer que o Eu se sobreponha a todas as outras esferas, pois assim teríamos a mais completa balbúrdia, criando uma situação de instabilidade pouco agradável. De alguma maneira os sentimentos exercem um peso maior do que outros elementos mais bem valorizados.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A identidade cultural na pós-modernidade - Stuart Hall

     Este livro de Stuart Hall acabou se tornando bibliografia básica quando a discussão gira em torno da identidade. Os motivos para isso não são para menos, afinal, com muita destreza ele consegue sintetizar as discussões em torno da identidade em basicamente cem páginas. O ponto de partida é a diferenciação entre três tipos de sujeito, e consequentemente de identidade.
     Estes três sujeitos são: A) o sujeito do Iluminismo, B) o sujeito sociológico, e por último, C) o sujeito pós-moderno. Em linhas gerias o sujeito do Iluminismo é entendido a partir de uma essência, e desta forma seria o que se é. Este é um sujeito indivisível, que é o que se é e não poderia ser outra coisa. Enquanto o sujeito sociológico tem a sua identidade formada a partir do meio em que vive, e que seu desenvolvimento, único e individual, se dá pelas experiências em um dado tipo de sociedade. Por sua vez o sujeito pós-moderno é fragmentado, mas não por não possuir identidade em momento algum, mas sim por agir através de uma infinidade de identidades, sendo pela manhã um trabalhador, pela tarde um estudante, pela noite um marido, oscilando seu vinculo identitário a cada instante. Um outro exemplo desta identidade pós-moderna, seria a de um sujeito que participa de alguma tribo urbana, que numa hora seria um clubber, noutra um londrino, depois um inglês, quem sabe um trabalhador, quem sabe um estudante, o que é claro para todo mundo é que suas identidades são múltiplas, gerando assim identificações. Reconhece-se que diferentes identificações são invocadas ao longo do dia, sendo a existência composta e reconhecida não mais como algo preso a uma identidade coesa e indivisível.
     Os embates ficam mais interessantes quando temos a questão nacional em jogo, pois o processo de globalização, que coloca este sujeito pós-moderno em cena, parece apagar cada vez mais qualquer resquício dessa identidade nacional, ou até mesmo local. Porém, o que podemos perceber de maneira mais atenta, é como estas identificações estão numa dialética constante, sendo assim, o processo de globalização está muito mais ligado a produção de novas identidades, e não a destruição da identidade. E desta forma, por mais que a identidade local apareça com cada vez mais força, isto é um processo ligado a globalização, e poderíamos dizer, tal qual é o caso das cidades do estado de Santa Catarina, isto seria uma forma de inserir-se melhor na globalização, já que seria um produto diferenciado. Hall traz a questão, de que em tempos de global, as fronteiras distantes estão ao alcance de uma passagem de avião, e desta forma o sujeitos estão numa tradução, mediando dois mundos. Sendo assim, não podemos entender a globalização como um simples processo de apagar identidades entendidas como seminais, mas sim como produção de novos significados, novos vínculos identitários, porém tudo isso da forma desigual que a globalização produz.

domingo, 31 de agosto de 2014

A memória entre a política e a emoção - Luisa Passerini


Desde muito tempo o Homem buscou no passado um diálogo com seu tempo presente. Seja Bloch e sua colocação firme sobre todo trabalho histórico ser a respeito do tempo presente, Bloch era um medievalista e a situação pode ser tornar mais crítica quando pegamos os acontecimentos traumáticos das recentes ditaduras militares da América. Podem ser eventos passados, mas muito bem marcados no presente e ainda atuantes, como bem observou Vladimir Saflate, muitos cargos importantes ainda são geridos por pessoas que tiveram sua formação no período militar, ou ainda são tocados da mesma forma, com a mesma tecnologia burocrática e ética. Desta forma o século XX trouxe à tona a necessidade de uma história do tempo presente. É neste século, em especial na sua segunda metade, que vemos vários países dando atenção para a História ainda presente e fundando institutos preocupados com tal desafio. Mesmo que tenham surgido sob a sombra de alguma pasta ministerial, não demoraram muito em galgar sua independência e verem seus cargos institucionais ocupados por historiadores profissionais. Nesta direção podemos fazer eco a observação de Pieter Lagrou quando diz que a história não é exclusiva aos historiadores, pois enquanto questão de cidadania deve ser aberta para aqueles excluídos do círculo profissional da área. É algo que também faz parte dos cidadãos, por isso eles devem ser convidados para o debate.
Quando se trata de colocar a história em debate, mais do que deixando claro que se faz parte dela, mas que se fala algo que boa parte das pessoas viveram, o recurso oral talvez seja um dos mais fantásticos para isso. Neste sentido cresce cada vez mais a busca por recursos orais, como entrevistas. Outros meios menos diretos que por sorte acabam sobrevivendo a catástrofes, seja um diário ou um conjunto de cartas, também são utilizados. São formas de dialogar diretamente com algo difícil de rastrear e penetrar: as emoções e os sentimentos.
Apesar da caricatura que se faz desses elementos vistos como não racionais, eles são vitais para muitas situações. Como pensar na experiência do uso de violência em busca de fins políticos nos anos 1970, sem recorrer a um diálogo mais direto? Passerini trabalhou com entrevistas, dando voz as pessoas que participaram desse processo, dando a possibilidade de se explicarem, de refletirem e debaterem sobre um assunto ainda fresco, com feridas ainda abertas. Também foi por meio de cartas que conseguiu rastrear a construção histórica de elementos tão abstratos quanto a política, porém muito menos abordados. Quem sabe possamos pegar uma carona em Braudel e entendermos cada tempo como constituindo de suas peculiaridades inerentes a vontade humana, que por mais amada ou odiada que sejam estas peculiaridades, elas se mostram presentes no tempo, apesar de seu tempo de existência ser claramente limitado, não faz com que sejam menos atuantes. Braudel pensa na longa duração, nós já não pretendemos ver o tempo desta forma, porém o que está claro é a peculiaridade de cada tempo, e este não é um elemento bem marcado.
O que Passerini parece apontar, e Arlette Farge também, é para um campo caro aos historiadores, que talvez já foi palco de algumas aventuras com o nome de “história das mentalidades”, mas há coisas vitais em elementos pouco concretos dentro da investigação histórica, como os sentimentos, crenças, formas de pensar e agir que só podem ocorrer em determinado tempo. Será que as formas de encarar a violência ou sentimentos de amor sempre foram uniformes? É uma pergunta difícil de responder.

Referências:

LAGROU, Pieter. A história do tempo presente na Europa depois de 1945. in: 
SAFLATE, Vladimir. A ditadura venceu. in: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2014/04/1433855-a-ditadura-venceu.shtml
BRAUDEL, Fernand. História e ciências sociais. A longa duração. in: Escritos sobre a história. São Paulo: perspectiva, 2009.
FARGE, Alette. Lugares para a História. Belo Horizonte: autêntica, 2011.


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Solaris - Stanislaw Lem


Stanislaw Lem pretendia utilizar a ficção científica como um lugar de debate. Se pegarmos clássicos como Orwell, Huxley e Dick, podemos perceber que a discussão sempre está ali, seja de nossa sociedade ou seja de nossa existência. Por isso o autor demonstra sem nenhuma timidez seu conhecimento enciclopédico, afinal, mais do que uma boa história ele desejava algo mais. O gênero Romance possui este caráter didático.
Pode parecer contraditório, mas desde que o Homem ocidental trocou a Terra pelo Sol no centro do universo, os estudos humanos cresceram e tomaram o exemplo do homem vitruviano de Da Vinci usando o ser humano como a forma de todas as medidas. Apesar de aceitarmos a posição do Sol, este deslocamento espacial está ligado a um deslocamento antropológico: nós somos o centro, somos a imagem e semelhança de Deus, somos os donos do mundo. Junto com o sol, os cafés começam a ter mesas cada vez menores, algo muito distinto daquela mesa grande onde todos se sentavam apenas buscando um lugar vago. Da mesma forma que em cafés, independente do lugar ocupado, o ego observador e julgador, seria a medida das coisas – o normal – neste flaneur.
As explorações espaciais quando do lançamento do livro (1961) eram ainda algo novo, porém a exploração do espaço sempre foi algo fascinante, e de certa forma nos desloca deste centro imaginário que acreditamos estar. Desde que estas aventuras espaciais começaram não deixamos de perguntar se existe vida fora da Terra. Certa vez li um declaração de Carl Sagan dizendo que seria muito esnobe acreditar que em toda esta vastidão do universo, que ainda não conseguimos entender ou desvendar direito, somos os únicos abençoados com o dom da vida. A afirmação de Sagan é clara em afirmar ironicamente que existe sim vida fora da terra. Como ela é? Bem, Solaris parece discutir isso, e provavelmente esta vida estaria bem longe de qualquer forma de vida existente na Terra. Aqueles extraterrestres humanoides que aparecem nos filmes, pode esquecer eles. Solaris é o ponto chave nisto tudo, é um planeta ou um ser-vivo? Tudo indica que o Oceano de Solaris tem vontade e não apresenta comportamento regular, como a Terra e suas estações do ano.
Apesar das incertezas sobre o planeta, pois em momento algum fica claro o que seria Solaris, e o termo ser-vivo parece ser o mais exato, mesmo não sendo uma resposta concisa. Quando imaginamos uma forma de vida além da humana, o Homem Vitruviano aparece em cena como a medida de todas as coisas e imaginamos seres semelhantes a nós, e Solaris acaba demonstrando que isto é um belo engano. Solaris seria uma forma de vida inteligente e completamente diferente que qualquer outra coisa já vista pelo Homem. A Solarística citada no livro é a ciência que tenta estabelecer contato com Solaris. Este último por sua vez sempre fica ignorando aqueles sujeitos minúsculos na estação.
O que me chama a atenção é o caráter psicológico da trama. O personagem principal seria um psicólogo, o planeta é envolto por um Oceano (termo freudiano), e os visitantes que surgem no livro são pessoas ligadas a questões puramente intimas, guardadas na profundeza do consciente de cada um dos personagens. Estes visitantes por sua vez se parecem fisicamente com os humanos, mas os exames feitos por Gibariam comprovam que nada mais são do que moléculas, ou seja, não possuem órgãos, funções vitais (não morrem ao ingerir oxigênio liquido por exemplo) e por isso não sentem fome. Mas o medo, a solidão e o pensamento estão presentes. Há uma certa independência por parte dos visitantes, nada excepcional, mas que se desenvolve com o tempo. Rheya não gosta de saber o que ela é.
Por fim o grande questionamento é justamente este de nos acreditarmos a medida de todas as coisas, que devemos aprender a respeitar outras formas de vida que não a nossa. Boa parte dos argumentos para o consumo de carne, por exemplo, se justificam sobre este especismo. E quando nos deparamos com uma forma de vida diferente da nossa, e que pode ser tão poderosa a ponto de sondar a nossa mente até os lugares mais profundos, ficamos sem reação. Talvez o homem deva descer desta estação espacial imaginária e aceitar que diferentes formas de vida também existem e são conscientes. Fico em dúvida se a ideia final é a de que podemos nos perder em nossas próprias criações, já que toda confusão vêm do subconsciente dos cientistas daquela estação. Todavia as minhas reflexões sobre Solaris não estão consolidadas – e talvez nunca estejam. Infelizmente Stanislaw Lem é um autor praticamente ignorado fora da europa central e terras mais ao leste.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A função do orgasmo - Wilhelm Reich


O sexo é algo que todos fazem e têm, mesmo que você esteja faz muito tempo em abstinência (voluntária ou não), ainda “não tem idade” ou seja lá qual for o motivo, você pelo menos uma vez na sua vida “se tocou”, ou irá fazer tudo isso. Sexo está ai, é feito faz muito tempo e continuaremos fazendo. Nenhuma novidade nisso tudo.
Entretanto as diferentes temporalidades implicam em diferentes relações sexuais, os movimentos básicos podem ser os mesmos, mas a interpretação do ato nunca o foi, fazemos sexo e os gregos antigos também, mas não fazemos como os gregos antigos. Reich escreve de um tempo, que deve ser sempre levado em consideração ao lê-lo. Seu livro “A função do orgasmo” não vai te ensinar como fazer mais e melhor sexo, todo que ele faz é abordar este assunto de maneira séria. Na verdade “A função do orgasmo” é uma explicação de seu processo cientifico, sua pesquisa, que indica o orgasmo como a característica mais importante para uma existência em paz consigo e saudável. Wilhelm Reich deixa claro as dificuldades de seu tempo, uma delas era tratar da questão sexual com seriedade. Como já ilustrado em “Escute Zé ninguém”, Reich era constantemente xingado de pervertido para baixo.
Para entender Reich é importante seu tempo, falamos dos “tempos sombrios” (entre guerras), de um lado o modelo liberal democrático em decadência, de outro o stalinismo (que apesar de não estar colocado de forma clara, já demonstrava seu caráter autoritário) e surgindo como opção temos o nazismo – visto com bons olhos pelos liberais-democráticos. Nada promissor não é mesmo? Além disso estamos falando dos primeiros estudos sobre a sexualidade humana, logo é compreensível o constante ar repressivo nas entrelinhas. Há sim, até hoje uma repressão sexual, em especial com as crianças e jovens, desde a mão boba até coisas mais concretas como beijos e atos sexuais. Afinal, o que determina a idade certa para o primeiro ato sexual? A menstruação? A descoberta da ejaculação? Óbvio que por um lado temos toda uma pressão sobre a prática do ato sexual, que já ocorria nos tempos sombrios, onde o garanhão ganha um certo status. Por isso não podemos resumir a libertação sexual a prática sexual. Os chamados pervertidos não são bem resolvidos sexualmente, e olha que tudo indica que eles praticam sexo, certo?
Uma coisa simples que Wilhelm Reich coloca é que a relação sexual deve ocorrer de maneira satisfatória: ejaculação precoce, constante insaciedade (ninfomania), satisfação pela violência, perfil de garanhão, são indicativos de pessoas que praticam o sexo, mas acabam, segundo Reich, não atingindo o orgasmo. A ejaculação precoce é uma decepção para ambos os lados, não precisamos de nenhum estudo cientifico para isso, é a pura e simples ejaculação antes da satisfação sexual completa (orgasmo). A insaciedade seria causada por alguns motivos, os principais são nunca atingir o orgasmo e até mesmo um recurso de ganhar atenção. A satisfação pela violência (sexo violento, como por exemplo vários vídeos pornôs atuais, ou até mesmo casos mais críticos como prazer na dor alheia ou estupro), indicariam um desejo de alcançar o orgasmo, porém este desejo é tão grande e confuso que acaba causando uma tensão que reflete no físico da pessoa. Na tentativa de romper esta tensão atos violentos são a expressão mais comum (vontade de explodir), e algumas vezes até mesmo uma repulsa, “nojo”, do ato sexual. É bom colocar que uma certa tensão pré ato sexual é normal, porém algumas pessoas não conseguem realizar um ato sexual satisfatório – seja pela repressão, impedindo-o, como pelo sexo sem um desejo sincero (algo como sexo sem um sentimento de carinho) – e acabam ficando tensas. Esta tensão ocorre desde uma musculatura dura, tensa (você já deve ter visto alguém ou ficado assim), até o prazer em atos violentos sem sentido ou atitudes grosseiras durante o ato sexual. O perfil do garanhão, do “pegador”, já é o ato sexual pelo seu status, em especial para os homens, e não pelo prazer do ato, isto leva a um ato mecânico e sem prazer – e ejaculação não indica que você chegou ao orgasmo, vide o exemplo da ejaculação precoce.
São inúmeros casos abordados por Reich ao longo de sua obra e é impossível colocar tudo aqui, até porque não sou a pessoa mais indicada para isto, pretendo apenas iniciar uma discussão e jogar algumas palavras ao vento – o que no caso da internet é colocar uma carta na garrafa e soltá-la no mar. O que ocorre é que Reich trata a sexualidade como um problema sério e social. É necessário garantir as pessoas uma boa relação sexual, ajudá-las a isso, afinal de contas é uma de nossas angústias. Por vários e vários motivos nossas relações modernas influenciam nosso ato sexual. E com a liberal década de 1970 já na história e o sexo antes do casamento consolidado como normal, podemos acreditar que nossa relação alcançou a perfeição ou está próxima disso. Não é um sentido de nostalgia que deve ser buscado aqui (longe disso!), mas sim entender que nossa relação com o sexo ainda tem seu caráter repressor, mesmo que já não seja a mesma repressão sofrida por Reich. Na internet são comuns vídeos roubados da intimidade de alguém e a constante intromissão na vida sexual das pessoas (desde comentários bestas como “ela provocou”, “vagabunda”, até os homofóbicos). Há também uma cobrança para que todos sejam garanhões e “garanhonas”, deveríamos estar falando de boas relações sexuais, que nos deem satisfação, sem manuais, sem regras e não de quantidades de sexo. Como vi uma estudiosa da sexualidade dizendo, atualmente o sexo é de massa, e deveria ser pessoal, íntimo afinal. Parece que este é o desafio, relacionar-se sem regras, entender o ato sexual e o amor como movimentos de libertação, de negação da sociedade que vivemos.

domingo, 20 de outubro de 2013

Estruturalismo: Antologia de textos teóricos - Eduardo Prado Coelho (org.)


Ou, Para Ler o estruturalismo

Durante minha formação acadêmica as palavras estrutura e estruturalismo, apareciam junto a seus derivados de maneira recorrente. Autores como Lévi-Strauss, Lacan, Sartre, Barthes, Derrida, Foucault e outros associados em maior ou menor grau ao estruturalismo eram e continuam sendo recorrentes. O uso da palavra estrutura para definir mais do que alguma questão arquitetônica, ou seja, física, é usado constantemente e parece não despertar grandes dúvidas. Toda vez que se procura explicar alguma questão social, mesmo por pessoas fora dos círculos acadêmicos, expressões como “família desestruturada”, “falta estrutura emocional”, “não houve uma estrutura na formação do caráter”, procuram determinar aquela situação ou sujeito. A indagação pessoal surge quando começo a estudar as cidades, o que coincidiu com as notícias da Copa do mundo no Brasil. Começou-se uma corrida pela “estruturação” do país. Podemos perceber que desde a implantação de questões urgentes como o transporte público até a criminalidade, começaram a passar por algum tipo de estruturação ou re-estruturação. O uso dessa palavra está associado a muito mais do que uma questão arquitetônica. Antes de continuar, vale lembrar de que a arquitetura é afinal de contas uma ciência que têm como objeto o homem, já que é ele quem vai habitar e produzir aqueles lugares, aquela estrutura. Com estas questões postas, ler o estruturalismo hoje de uma forma consciente possa nos ajudar. E sobre isto é importante deixar claro que a intenção aqui não é resgatar o estruturalismo, mas sim entender um pouco melhor o que foi isto.
O estruturalismo será a grande teoria do pós-guerra. Autores sem fim se associam em menor ou maior grau a este bastião teórico. O curioso é que não existe uma definição muito lógica do estruturalismo. O conceito mais próximo é a estrutura no seu sentido arquitetural, aquilo que sustenta, que dá a base para todo o resto da construção. Em alguns autores esta questão parece mais rígida, como se uma grade procurasse definir as formas, e para outros nem tão definida e determinante. Ocorre que é nítido após a segunda-guerra mundial um uso cada vez maior desta coisa que é o estruturalismo. Segundo aponta François Dosse1 a arregimentação dos intelectuais em torno deste aporte teórico ganha magnitude após a supressão da revolução húngara de 1956, onde o modelo socialista-soviético-stalinista é posto em xeque e começam a buscar uma alternativa ao marxismo, doutrina oficial do Partido Comunista Francês ao qual estavam associados (formal ou informalmente) vários estudiosos franceses.
Apesar da vertente marxista do estruturalismo, representada principalmente por Althusser, Karl Marx deixa de ser uma noção essencial para aquela época. É visível um forte apego aos estudos de Marx após a Segunda Guerra em especial pelas necessidades e questões postas por este momento histórico, dentre elas o nazismo, porém a revolução húngara traz novas necessidades. Mesmo com este abandono do marxismo (do qual somos herdeiros cada vez mais sinceros) não podemos ignorar que pelo menos um pouco do conceito de estrutura vêm deste pensador alemão. É comum indicar as origens do estruturalismo nalguma coisa entre Saussure e Marx.
Mesmo sem uma grande leitura deste autor tão conhecido, podemos perceber realmente que ele traz algumas questões estruturais. Alguns elementos da exploração capitalista descrita por Marx ainda hoje servem tão bem que muitas vezes esquecemos de historicizar sua teoria e perceber que nosso tempo já é outro – e sim, ainda somos explorados, porém não da mesma forma que no século XIX. O marxismo, talvez mais do que o próprio Karl, nos trazem algumas questões chave que parecem determinar nossa sociedade. É por este caminho que Lévi-Strauss se embrenhava quando começou a aventura estruturalista2. O que este francês formado em filosofia, porém que se descobre antropólogo nas matas brasileiras, propõem é buscar princípios norteadores do homem. É uma questão muito científica e direta: “a estrutura é coisa diversa do que eu denominei por organização, mas também que ela nos dá a chave de um funcionamento”3. Desde Lévi-Strauss há esta que parece ser a única definição do que é o estruturalismo, uma busca pelos elementos chave da sociedade (por isso a dívida com Marx), e estes elementos são diretos ao Homem.
Não se viam enquanto um movimento determinado, muitos autores inclusos neste rol de autores se autoexcluem e não existe um método ou teoria definido e perceptível em comum entre todos os chamados estruturalistas. O que é fácil perceber é que eles, seja um linguista ou um antropólogo, buscam compreender e identificar os pontos chave da sociedade. No caso de Lévi-Strauss teremos o famoso caso do incesto, tabu visível em toas a sociedades. Enquanto antropólogo, ou seja, de estudar o Homem enquanto espécie, Lévi-Strauss identifica um elemento comum ao homem, algo que compõem sua estrutura em todas as sociedades – logo a todos os homens.
Não é fácil falar sobre este movimento, tão claramente visto como importante, mas deixado a distância. Ninguém mais aceita ser chamado de estruturalista, entretanto lemos vários autores que já receberam esta nomenclatura em algum momento. O que ocorre e fico com a herança mais forte deste mote teórico é a crença em elementos estruturais para com o homem, seja as instituições (escolas, prisões, sanatórios, etc), sejam os costumes (burgueses, machistas...), a própria arquitetura (panóptico como o exemplo mais claro) ou este turbilhão indefinido que se chama cultura, há pontos chave nestes elementos tão respectivos ao homem. Entretanto o grande crime dos estruturalistas foi apostar muitas fichas no peso desta estrutura, quando elementos que vão desde o indivíduo até as rupturas existem e acabam levando a estrutura para segundo plano. Não acredito que precisamos retornar ao termo, mas sim saber que seus reflexos ainda estão ali. Pois segundo tudo indica usamos mais do que a palavra, também somos herdeiros desta linha de pensamento, mesmo não o usando mais.
1DOSSE, François. História do estruturalismo, v. 1: o campo do signo, 1945-1966. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: editora da universidade Estadual de Campinas, 1993.
2O próprio Claude Lévi-Strauss fora um assíduo leitor de Karl Marx durante seus anos de juventude. O mesmo se põem para praticamente todos os membros fundadores da escola estruturalista, para mais detalhes ver: DOSSE, François. História do estruturalismo, v. 1: o campo do signo, 1945-1966. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: editora da universidade Estadual de Campinas, 1993.
3POUILLON, Jean. Uma tentativa de definição. In: COELHO, Eduardo Prado (org.). Estruturalismo: antologia de textos teóricos. Lisboa: Protugália editora, 1968, p. 13.


segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Os cus de Judas - Antônio Lobo Antunes


Portugal faz parte do clube dos últimos países a perderem suas colônias na África. Curioso que não estamos falando de um país importante como Reino Unido ou França, mas sim de Portugal. Boa parte da honra em manter aquelas colônias africanas estava no desejo de agarrar alguma coisa num passado já tão distante que nem parece algum dia ter existido: as grandes navegações.
Mesmo fazendo já muito tempo que os portugueses se lançaram ao mar, havia no regime de Salazar um uso muito forte desse passado. Este é o alerta para quem se interessa pela história, ditadores não cessam de se voltar para ela. Se agarram, se prendem, choram e conclamam poemas pelo passado, pretérito invisível, que ninguém vivo jamais viu. Pelo que percebo Salazar ainda é uma ferida para os portugueses, assim como os militares ainda são para os brasileiros.
Como ignorar a ditadura de Salazar e sua postura insistente com suas colônias? Havia pouco diálogo, algo possível de se notar pela educação recebida nas colônias, onde aprendiam que eram portugueses e na aulas de geografia, por exemplo, aprendiam quais eram os principais afluentes do rio Tejo... Acredito que podemos ver neste passado colonial não tão distante de Portugal alguns aspectos para entendermos o terceiro mundo e até mesmo a importância da existência de um país como a União Soviética – apesar dos pesares.
Temos um português dialogando com esta ferida, não alguém dali. Aos poucos o livro vai ganhando cada vez mais contornos anti-Salazar. Podemos não perceber devido a certos julgamentos, mas eles estão ali muito mais devido ao estranhamento do estrangeiro, do sujeito que não tem nada a ver com aquele cus de Judas, que afinal, não é mesmo Portugal. O personagem principal, que nos conta sua jornada, não se vê ali em África. Porém não podemos nos iludir, já que os únicos momentos que Lisboa soa familiar e na narrativa da saudade e da memória. Nestes reinos o lar é outro, sempre diferente do lar encontrado na volta, na visita.
Antônio Lobo Antunes escreve difícil e de forma particular, sua escrita segue o sentido da mente humana, não há um começo-meio-e-fim definido nos parágrafos, apenas ao longo do tempo o leitor se localiza no meio de tamanha confusão. Mas, Antunes como bom psicanalista que deve ser, sabe que a mente humana não é uma via expressa, mas sim um labirinto, e cheio de minotauros.
Os cus de Judas trata dos traumas de um país num momento histórico muito específico, esta dada uma possibilidade do estudo da psicologia e da história, talvez sirva de leque para esta junção que me interessa cada vez mais. Além disso, o livro é uma peça fundamental para entendermos um pouco mais dessa mistura entre África, Brasil e Portugal, algo tão visível mas nem um pouco claro.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Escute, Zé Ninguém - Wilhelm Reich


          Observando o que foram os primeiros 30 anos do século XX, podemos perceber que havia uma força motivadora muito grande neste período. Uma busca pela emancipação do indivíduo talvez seja a forma resumida de entender isto. Neste sentido o livro de Reich, publicado logo após o término da segunda guerra mundial, se mostra um manifesto muito claro e consequência deste tempo. Ler este livro com um mínimo de olhar histórico pode se revelar uma experiência única.
          A invenção do indivíduo produzirá uma série de novas tecnologias. Podemos observar que noções de comportamento e política vão mudando conforme esta invenção se faz e aperfeiçoa. Podemos observar que o ideal político começa a abandonar o modelo semi-divino do rei, caminhando para algo mais republicano, e talvez num ponto mais extremo, para o comunismo ou a anarquia. O sujeito se reconhecerá enquanto indivíduo, e buscará ser tratado como tal, cada vez mais em busca da sua liberdade individual. Daí a necessidade de abandonar a vontade de um soberano (quase divino) na busca de formas mais eficientes para suprir vontades coletivas de cada pessoa – por isso a república e a democracia moderna, da quais carregamos forte herança.
          Talvez no inicio do século XX nunca tenhamos chego tão perto de uma emancipação do individuo, jamais vista em outros períodos históricos. Se num dado momento utilizarão o Estado para mediar os interesses coletivos (a exemplo da revolução francesa), nos princípios do século XX quase chegamos talvez a abandonar, não necessitar e não desejar o Estado (esta herança autoritária dos soberanos absolutos). Curiosamente após a quebra da bolsa de valores temos um forte reforço do Estado por meio das propagandas e totalitarismos, acompanhada de frenética caça a grupos dissidentes (em especial anarquistas e comunistas, mas também religiosos como os testemunhas de Jeová, que se negam ao serviço militar), e vale lembrar, isto se passou em praticamente todo o mundo ocidental, não só na Alemanha nazista.
          Wilhelm Reich acaba provocando para este medo da liberdade que está no cidadão comum, e procura lhe mostrar a autonomia que ele pode exercer, recordando de que não há soberanos sem súditos  - para lhes sustentar. Amplamente identificado com o anarquismo, este austríaco parece caminhar para um pouco mais do que isso. O que ocorre afinal é um pedido para que não se repulse a liberdade, que não se deixe de amar, que haja sinceridade, e o mais importante, que não precisamos ter medo da vida. Preocupar-se com a rotina dos outros revela uma frustração enorme consigo mesmo, e devemos trabalhar sobre esta subjetividade com vista na emancipação máxima de nosso sujeito. Busquemos ser um Espírito Livre!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Contemplação/O Foguista - Franz Kafka

Kafka consegue falar do sujeito moderno como poucos. As neuroses, crises e inconstância, parecem marcar bem este tipo de sujeito tão bem sujeitado. Não por acaso uma literatura tão fantástica acabe conversando tão bem conosco. Não só o sujeito é bem desenhando pelo tcheco, como também o meio em que vive este personagem. Elementos variados podem ser percebidos.
O mais conhecido destes elementos talvez seja o escritório. Büro em alemão. E sim é daí que se origina a palavra burocracia, e isto os povos de língua alemã souberam fazer como ninguém! Vale lembrar que esta é a língua em que Kafka escrevia, assim como era a língua usada pelo funcionalismo público de Praga, apesar da língua falada nas ruas ser o tcheco. O meio burocrático está ali constantemente ameaçando engolir o personagem, este por sua vez se vê acudido, querendo fugir, quase entrando num estado histérico, mas algo o parece impedir de perder a compostura. O escritório ou gabinete é um dos grandes ambientes da literatura de Kafka. E é hoje lugar de trabalho de muita gente.
Outra atenção aparece em relação às cidades e o seu frenesi, com trânsito, trens, fumaça, sujeira, mesmo que o normal seja não conduzir o leitor para algum passeio pelas ruas. Ela acaba se fazendo presente de alguma forma, mesmo que seja quando de algum olhar tímido pela janela. Pensando nisso a sensação claustrofóbica só aumenta, e voltamos a este sujeito moderno.
Sempre nervoso, podendo ser derrotado a cada instante. Não só pela conversa que se faz com outro personagem, como também por toda a ambiência que o cerca. De alguma forma a arquitetura que se arquiteta envolve o personagem. Poucas vezes me recordo de ler algo de Kafka que não se ambiente no interior de alguma construção, navio ou escritório.
Além de tudo isto, outro elemento tão caro aos modernos está ali, a fragmentação, e isto também tem relação com o tempo. Sejam os curtíssimos contos de Contemplação ou até mesmo suas histórias mais famosas, são sempre possíveis fragmentos do cotidiano. O leitor não é instigado a saber detalhes da vida do personagem, e não lhe interessa necessariamente saber tão pouco o fim que o personagem terá. O fragmento da história se encerra da mesma forma que inicia. E nossa vida é fragmentária. Alguém que te pergunta algo na rua, uma discussão rápida, não seguimos uma pretensa constância cotidiana, tão logo começa, termina. Um acaso parece conduzir as histórias de Kafka, um esbarrão num maquinista inicia uma história que termina com uma improbidade tal que, acaba se tornando real. Puro acaso, mas real, crível no final das contas. E por mais fantástico que seja a literatura deste sujeito geograficamente periférico da língua alemã, o incrível acaba sendo o mundo real não as fantasias criadas a partir dele.