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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Mondovino - Jonathan Nossiter


Além de cineasta Jonathan Nossiter é sommelier, por isso durante longos anos a fio ele foi percorrendo variadas localidades com sua câmera de mão para falar sobre vinho nos principais centros produtores. A ideia base que Nossiter carrega ao tratar do vinho, é o curioso fato de que durante um longo período da história humana, o vinho foi uma bebida que acompanhou as multidões. Era vinho o que a plateia do coliseu bebia, era vinho o que era servido nos bacanais gregos, era vinho uma das bebidas consumidas no Egito antigo ou na mesopotâmia, não por acaso é até hoje o vinho a bebida consumida num importante ritual religioso dos cristãos. Porém, em dado momento mais recente, coisa de não mais de duzentos anos, o vinho foi ganhando um caráter de aristocracia, de elite, de bebida nobre frente a todas as outras. É ai que as coisas começam a complicar.
Atualmente a indústria do vinho gera muito dinheiro, especialmente se olharmos para os vinhos mais famosos que ultrapassam tranquilamente os mil reais. Nossiter vê alguns problemas no consumo de vinho destes tempos pra cá. Seu status de bebida nobre frente todas as outras bebidas, é uma das coisas que mais afasta as pessoas do vinho, não propriamente evitando que elas consumam a bebida, mas que criem uma relação pouco produtiva com ela. Não por acaso, uma das primeiras cenas, dos primeiros locais visitados é uma plantação de uvas Malvasia na Itália. Duas falas marcantes são a de Nossiter explicando porque estava lá, dizendo que havia provado aquele vinho nua cantina ali perto e que gostou tanto que queria cumprimentar o produtor. O produtor por sua vez, que era um sujeito velhinho acompanhado de sua esposa, explica que a Malvasia era plantada por ele por uma tradição de fazer o próprio vinho da fazenda e de oferecer para as pessoas, tal qual se oferece café, em sua explicação ele lamentava que seus vizinhos não plantavam mais a uva, pois não valia a pena financeiramente.
Ao longo do documentário vai ficando clara a força que grandes empresas têm frente estes produtores pequenos, sejam alguns bem sucedidos franceses que conseguem vender seus vinhos ainda com algum caráter de boutique, seja um mestiço argentino acoado com sua pequena propriedade frente grandes produtores de vinho da região de Mendoza, Argentina. A problemática por trás destes pequenos produtores perdendo espaço para gigantescos e até mesmo transcontinentais conglomerados, é uma certa “standartização” do vinho. Isto fica claro na figura de Michel Rolland e principalmente de Robert Parker. A figura de Parker talvez seja mais conhecida. Certamente R. Parker é o crítico de vinhos mais famoso, e você vai ver a influência que ele tem assim que abrir qualquer site que venda vinhos online, e como vinhos mais caros têm o seu preço mais alto justificado através da pontuação dada por Parker. Desta forma, unindo as duas pontas de um enólogo como Rolland que passa o mesmo método produtivo para vários vinicultores e de um Robert Parker que define o bom e ruim no mundo do vinho unicamente através de seu paladar, teremos vinhos cada vez mais iguais, mais manipulados e sem caráter, sem uma personalidade específica. O alerta de Nossiter não é sem exagero, vide a quantidade de vinhos das castas Cabernet Sauvignon, Merlot, Sauvignon Blanc e Chardonnay. Isso que nem estamos falando de Tannat, Malbec, Syrah, Riesling ou Torrontés, mas podemos pensar em países com tradição vinífera de longa data, como Portugal, Espanha, Alemanha, Áustria, Romênia, Grécia, Turquia e Geórgia, cada um com sua forma de produzir e suas castas específicas. Certamente o filme de Nossiter nos ajuda a buscar vinhos menos óbvios e menos caros, como foi afirmado por ele numa entrevista, devemos beber vinhos de cinco até cem dólares, com o que ele complementou que raramente pagava mais de cem dólares pelo fato de poucos vinhos realmente valerem isso.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Primer - Shane Carruth


Aviso: talvez seja melhor ver o filme antes de ler sobre ele.
Primer tem um roteiro base simples, que você já viu em outros filmes: a viagem no tempo. Conhecemos as possíveis implicações que isto traria caso sua possibilidade se concretizasse. As implicações são conhecidas e variadas, desde não cruzar com seu duplo e interferir na ordem das coisas, até a impossibilidade de ir para o futuro, já que ele ainda não aconteceu.
O que surpreende, é seu orçamento de sete mil dólares e a forma com que a história é contada. Shane Carruth é graduado em matemática e trabalhava no desenvolvimento de softwares antes de iniciar sua carreira cinematográfica, e isto faz diferença na forma com que o filme é feito. A primeira coisa, e para mim o ponto mais forte, está no fato de não haver simplificação nos diálogos, especialmente entre os dois protagonistas, mesmo quando eles discutem o aparelho que estão desenvolvendo. A descoberta é por acidente, e o acidente torna crível a descoberta dos dois amigos, eles acreditavam estar desenvolvendo algo como um redutor de peso. Como aprendemos na escola, o peso se altera alterando a gravidade e uma distorção no espaço-tempo distorceria a gravidade, logo mudaria o peso. Acidentalmente, o que ocorre no aparelho desenvolvido pelos dois amigos em sua garagem, é uma curta viagem no tempo, sempre 6 horas atrás no passado.
Em princípio a ideia era aproveitar esta vantagem para ganhar um bom dinheiro na bolsa de valores todos os dias, já que os dois são engenheiros em empresas privadas de desenvolvimento de tecnologia e sabem que o mais certo é serem demitidos quando sua vitalidade diminuir e seu salário aumentar, ali pelos 40 anos. São coisas como essa, que aparecem de soslaio ao longo do filme, que dão o toque de real para ele, que muitas vezes falta em outros filmes sobre viagem no tempo. Para reforçar esse ar de realidade e seriedade que temos ao longo de todo o filme, a estética sempre preza uma imagem complicada, pouco clara, confusa, nos produzindo um estado de pré-viagem com o tempo. A confusão narrativa é proposital, tomar contato com outras temporalidades que não a do presente, sempre nos produz uma sensação das mais estranhas – e como historiador devo dizer, das mais prazerosas também.
Desta forma, são pontos como esse, que para além do baixo orçamento de Primer, que usou e abusou de amigos e conhecidos de Carruth como atores e figurantes, bem como suas casas suburbanas, que tornam o filme interessante, conseguindo ser sério, nos prender e o melhor de tudo, não nos tratar como completos imbecis frente à tela. Afinal, se era preciso tratar de um tema já tão batido como a viagem no tempo, era necessário trazer algo de novo, Shane Carruth conseguiu.

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Selma - Paul Webb (argumento)

     É possível afirmar que, até agora, o filme que melhor conseguiu retratar a situação da segregação racial nos Estados Unidos da América e a luta dos movimentos pelos direitos civis dos anos 1950-60 fique por conta de Selma. E isto não se dá pelas boas atuações, figurino, e outros tantos detalhes técnicos e estéticos que estão sim muito bem apresentáveis, mas pelo fato de não se omitir em demonstrar a violência constante, que era utilizada (e de alguma forma ainda o é) para manter e exercer um racismo cotidiano. O racismo, e ligeiramente incluiremos o machismo aqui também, é uma prática pautada pela violência, pois é apenas por meio dela que uma separação inexistente e possível apenas no campo das ideias, seja levado a cabo. Afinal, apenas com muita violência, muita porrada e morte, você consegue tirar alguém de sua terra natal, obrigá-lo a uma situação degradante e humilhante, e assim apagar qualquer perspectiva no horizonte do tempo.
     E o filme não se ausenta do debate político que ocorria na época, e procura nos inserir de forma consistente e histórica na questão. Não se limita a política institucional dos partidos e das estruturas governamentais do Estado, e vai nos movimentos da sociedade civil e aqueles que podemos chamar de momentos/movimentos espontâneos ou autogeridos, afinal de contas tudo isso é parte fundamental da política. Como que numa espécie de mediação, temos a importante e central figura de Martin Luther King, pastor e principal figura do recorte elegido. Ele acabaria simbolizando aquilo que seria a organização da sociedade civil, por trazer a movimentação política e seu debate fora das instâncias burocráticas dos partidos e Estado, mas sem negar seu papel dentro de uma organização já estruturada e instrumentalizada num claro debate com o fronte burocrático. Outro fato que não podemos esquecer, é o de Luther King ser um pastor de uma igreja evangélica estadunidense. Podemos, e talvez devemos fazer uma mirada crítica pelo fato de apagarem e não darem tanta prioridade a outras articulações negras da época como os panteras negras1 e uma reduzida abordagem de Malcom X, mas ao mesmo tempo a abordagem dada nos ajuda a entender a difícil escolha e manutenção de um movimento enquanto pacifista e não-violento, sem adoção de uma postura passiva – e como tudo isso foi transbordado de sangue. De maneira resumida, podemos dizer que havia uma certa consciência de que, adotando práticas violentas o aparelhamento governamental (branco e impregnado de racismo) teria legitimidade pública para sufocar até o último suspiro, algo que de alguma forma ocorreu com os perseguidos Panteras Negras. E ao mesmo tempo, como adotar esta postura não fora nada fácil frente um cotidiano violento e friamente assassino.
     Em outro ponto retratado pelo filme, temos o governo de Lyndon B. Johnson, na época presidente dos EUA, e que promulgou por fim uma série de direitos civis. O cuidado em retratar esta esfera é muito válido, pois há uma clara intenção em não retratar Johnson como um racista-sulista típico, que acreditava piamente na segregação como uma garantia legal das leis “naturais”, mas ao mesmo tempo são muito realistas também em retratar como esta questão estava longe de ser uma prioridade para ele, e que estes avanços (como sempre) ocorreram de fato graças a ampla mobilização da sociedade civil. E ao mesmo tempo podemos perceber como King só conseguia estabelecer um diálogo mais consistente com o governo, graças a sua figura de persona moderada frente a outros movimentos negros, no caso Malcom X e sua postura menos pacifista, e como esta pluralidade de moimentos gerava uma situação que obrigava os EUA a repensar sua postura no campo social. Desta forma o filme consegue retratar bem a complexidade política do período, e como as articulações da sociedade civil foram vitais para a garantia de estabilidade provida pelo Estado.
     Podemos assim fazer uma última observação sintética, de como o filme pode servir de ótimo instrumento para nos inserir nas tensões do período, com todo um cuidado em demonstrar a importância de movimentos políticos fora de organizações estatais ou partidárias, e ao mesmo tempo nos ajuda a entender como estes direitos não foram dádivas, já que percebemos uma resistência clara em executá-los, já que boa parte deles já haviam sido implementados na administração Kennedy, mas como bem percebemos sua execução e efetivação era uma questão ainda muito distante, afinal este era um vespeiro. E por fim, como a figura de Martin Luther King era cercada e apoiada por outras tantas figuras que acabaram ganhando menor destaque, mesmo sendo tão vitais quanto ele, demonstrando como por mais importante que seja a figura de um líder, as movimentações não ocorrem única e exclusivamente por meio deles.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Interstellar - Christopher Nolan (dir.)

     Atrasado e sem pretensão séria de questionar o chato Oscar®. Admito, antes de tudo, que há alguma renovação acontecendo em Hollywood, afinal o negócio precisa continuar e para que isto ocorra, se adaptar é o mais usual. Mas, mesmo assim, boa parte dos filmes que ganharam prêmios só foram conhecidos pelo grande público após as indicações e prêmios recebidos. Interestellar já parece um caso distinto.
     Seu caráter de ficção-científica super bem produzida lhe garantiu um bom espaço nas salas de exibição, e não duvido foi assistido por muita gente. Filme espetacular, com atores bonitinhos e famosos, é verdade, mas uma das coisas mais importantes não pode ficar de lado: seu roteiro. Verdade seja dita, dos filmes que assisti, Interestellar foi o que conseguiu produzir o maior estranhamento e por isso foi o filme que mais gerou reflexão. Você pode citar Boyhood e os desafios cotidianos, mas ele não parece ir muito além da dificuldade em ser um indivíduo em constante transformação (sem falar que talvez leva muito tempo para mostrar isso, debates ao longo do filme não cairiam mal).
     A ficção-científica deve servir para pensar novas questões, já nos advertia Stanislaw Lem, ou vira mero exótico ou propaganda.
     Temos algum mérito pela questão da terra passar por um cataclismo ambiental, e isto se dar no campo da agricultura, afinal, encontrar qualquer alimento que não seja transgênico é um desafio, e pagá-lo seria um segundo. É justamente o milho um dos alimentos escolhidos, é justamente o milho que tem um dos códigos genéticos mais distorcidos. Mesmo que você observe que no filme este seria o único alimento a sobreviver, sua ruína está anunciada, e o que parece ocorrer é um movimento incompreensível. Ninguém sabe ao certo aonde isto vai dar. Junto com o milho temos as tempestades de poeira, evento que já ocorreu nos EUA durante a década de 1930, claramente por depredação do meio-ambiente e que exerce suas marcas até hoje. Temos um questionamento sobre como ajustar nossa produção de forma a sobrevivermos decentemente. Vale lembrar que a produção de alimentos é o setor mais agressivo ao meio-ambiente, seja pelo transporte, uso da terra e até mesmo pelos fertilizantes. Quando uma fábrica de fertilizantes causa problemas, é bom não estar perto. Isso que nem entramos no tabu do consumo de carne. Seguiremos.
     Também temos a escola, que revela seu caráter de produção de mão de obra, ao direcionar claramente funções para seus alunos antes mesmo que estes tenham demonstrado alguma clarividência sobre. Podemos ver também, na figura paterna e nos desafios feitos entre ele e seus filhos, a importância do conhecimento para além de algo prático e direcionado, se não fosse este olhar interessado, a comunicação com o “fantasma” jamais ocorreria e a trama não poderia se desenvolver sem este detalhe minúsculo. Confesso que me espanto com a tomada cada vez mais funcionalista e voltada para o mercado de trabalho nas discussões sobre educação, tudo isto numa sintonia ignorada com as reclamações de falta de inovação e preparo desses trabalhadores. Um salário final do mês, não é motivação suficiente. Percebemos algum questionamento sobre isso.
     O ponto central contudo é o tempo. Curioso como todos estamos inseridos nele, mas pouco pensamos sobre tal elemento ao longo de nossa vida. E normalmente, nas raras vezes que nos voltamos para o senhor do universo, enxergá-lo para além da mecânica do relógio parece um exercício mais penoso do que nadar contra a corrente. O fato de não estarmos limitados pelo tridimensional “real” já causa espanto. Distorções na rigidez cartesiana, tão clara em nossa forma de pensar, causa estranheza. Dobrar o espaço? Meu Deus, pode isso? Pode, afinal, ele é infinito e não tem forma definida. Imaginar mais de uma temporalidade é um desafio, especialmente quando historiadores pensam o passado. Bem sabemos que Benjamin já coloca esta simultaneidade e continuidade entre os tempos, mas lidar com isto é sempre um espanto. O Filme consegue colocar esta discussão de forma muito clara ao demonstrar que o tempo passa de forma diferente em cada lugar, as vezes lida com três tempos distintos. As ações desenvolvidas em cada plano temporal são reveladas independentemente, porém se mostram interligadas e num descompasso rítmico – os tempos são diferentes, mas um ritmo consegue se alcançado. Para pensarmos o tempo, é fundamental vê-lo além da mecânica, pois ele estaria além das três dimensões percebidas por nós.
     Recomendo o filme em especial para historiadores, estes sujeitos que pensam o passado e suas implicações no continuum temporal. Creio ser bem recebido por todos o reconhecimento de uma ligação entre o presente vivido e o passado que nos cerca, mas esta afirmação não facilita em nada reconhecer os pontos relacionais entre temporalidades tão distintas. Bem sabemos que o simples fato de dois eventos terem ocorrido numa mesma mecânica temporal (data, hora), não o explicam. Precisamos enxergar além da mecânica, do cartesiano.
     De fato é um filme que não responde as questões colocadas além da trama do enredo, mas negar que ele nos leva a refletir, seria desmerecer uma função tão valorosa e aparentemente não suprida em outros filmes tão premiados.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Nebraska - Alexander Payne (dir.)

     Ao mesmo tempo que o cinema americano é único por criar filmes e narrativas muito belas, bem elaboradas e de um nível muito particular, há na maior parte dos filmes uma repetição de mais do mesmo. Nos últimos tempos é perceptível nos filmes americanos mais sérios, como por exemplo alguns ganhadores do Oscar, tentativas de renovação. Querendo ou não Crash – no limite fez isso ao abordar vários problemas presentes na sociedade americana. Mesmo que não tenham dado conta do recado, a tentativa foi feita e deixaram clara uma necessidade estética de renovação e um caminho possível.
     Nebraska segue no mesmo caminho, sua escolha pelo preto e branco já é algo que indica esta tentativa e o objetivo de um caminho no mínimo pouco usual. Não apenas isso como também abordar temas tão caros aos EUA. Cabe abrir um parênteses aqui antes de continuar que é, independente do que se diga dos EUA, eles são sem dúvida uma referência desde algum tempo, sem nenhuma objeção. Por outro lado, o caráter dessa referência é assunto para outros debates necessários como o feito no livro O imperialismo sedutor. Porém, os anos 2000 e o que veio depois (UE, BRICs, etc) mostraram que este país já não é mais tão dono do mundo quanto era antes.
     É ai que podemos começar a fazer alguma análise do filme, e é importante deixar claro que isto não é nenhuma decifração subliminar de onde os envolvidos com o filme quiseram chegar, mas sim uma visão possível, um ponto de vista entre milhares sobre o filme. Primeiro fato a ser constatado, temos pelo menos três gerações muito bem desenhadas no filme, o personagem principal que aparece alinhado com as pessoas que participaram, ou quase, da segunda guerra mundial e guerra da Coréia, que é querendo ou não um ponto de virada, a geração dos 1970, que já sobreviveu e passou pelos conturbados anos 1960, e a turma que existe depois de 1990.
     Mais do que o Alzheimer e a inocência com o personagem chave do filme que quer porque quer buscar seu prêmio numa distante cidade, temos nele a representação de um tempo já passado e que sobrevive nos arquivos e na saudade (ainda presente na memória e lembrança das pessoas participantes deste tempo), ele é fruto desta época quase apagada. Da mesma forma que ele está decrépito e a ponto de deixar de existir, o tempo do qual ele fez parte também está lá. Algo que fica claro conforme seu filho vai descobrindo o passado de seus pais (algo sempre revelador), é que ele já foi muito mais do que um simples senhor respeitável que volta para casa após um dia de trabalho, podemos ir na crista de Robert Crumb e enxergar um certo brilho no passado americano que vai se extinguindo e sumindo conforme o tempo passa.
     Por outro lado os dois filhos do personagem principal do filme seriam um segunda geração iludida e presa nas promessas de uma carreira promissora e abuso dos bens de consumo, seja enquanto apresentador de sucesso ou trabalhador empenhado. De alguma forma as promessas são feitas e cada vez mais se sente estar próximo a elas, ao mesmo tempo que algo importante esteja faltando, nem que seja sua família ou namorada. Numa ponta final temos pessoas que nada mais querem do que beber cerveja, ver TV e não fazer absolutamente nada durante o resto de sua vida, “curtir geral” seria mais do que uma meta, é uma responsabilidade.
     De certa forma podemos perceber em Nebraska um diálogo da sociedade americana atual com o seu passado, mais do que fazer uma crítica é preciso fazer uma análise, sentar no divã e olhar para trás. Afinal os tempos eram duros, mas haviam coisas gloriosas. Enquanto a atualidade é fácil, mas passa a sincera sensação de estar desmoronando pelas bordas, seja pelo desemprego, pela clara impossibilidade de crescimento profissional, quanto pelo esvaziamento cada vez mais claro das cidades, seja pela via expressa quanto pelo êxodo rural. Não só temos a dificuldade de envelhecer, como temos também a dificuldade de sobreviver hoje em dia ilustrados no filme, problema pelo qual todos acabam passando. Neste sentido Nebraska aparece como um filme que busca dialogar com a sociedade americana atual.



terça-feira, 20 de maio de 2014

Sorte Cega - K. Kieslowski


Apesar da linguagem mais difícil de Kieslowski, seu cinema busca dialogar com a existência humana mantendo um diálogo com o sujeito comum, ordinário, humilde. Seus personagens dificilmente são grandes personalidades, quando muito são figuras que estariam em segundo plano de alguma pessoa que ocupa uma posição social de maior prestígio, a exemplo da mulher que é a viúva de um grande maestro (caso de A liberdade é azul). Em Sorte Cega, Kieslowski procura dialogar com a aleatoriedade, as múltiplas possibilidades que a vida pode colocar.
O roteiro é basicamente focado em mostrar três possibilidades numa simples viagem de trem. O fato de pegar ou não o trem na estação pode implicar em três destinos diferentes: se tornar um membro do partido comunista polonês, militar na oposição anti-comunista polonesa e a última opção seria concluir seus estudos em medicina e seguir uma vida pacata evitando envolvimento algum com a situação política polonesa.
Mesmo lidando com elementos como os caminhos possíveis da vida, há no filme um forte caráter político, e por este motivo o filme concluído em 1981 foi lançado apenas em 1987, devido as censuras do governo polonês da época. O que está comum em todas as possibilidades do filme é o fundo político, já que a adesão ao partido comunista está ligado de alguma forma em realizar uma mudança por dentro das entranhas do sistema político polonês, a militância anti-comunista se dá pelo desejo em transformar a realidade polonesa de uma forma muito mais combativa, direta e militante, enquanto no último caso, por mais que Witek fuga dos elementos políticos ele se vê cercado por eles, sendo forçado a tomar alguma posição quando da condenação do filho de seu mentor, que fica impossibilitado de viajar para a Líbia num importante congresso.
O curioso é que na primeira opção, da qual Witek escolhe aderir ao partido comunista, é o momento de menor ação política no filme, mostrando o partido como algo burocrático e que não responde aos desejos da população. E por mais claro e lúcido que possam ser os pedidos, a estrutura partidária se mostra ineficiente e seus membros ganham contornos cada vez mais atrapalhado e infantil. Conforme Witek ganha prestígio no partido, ele se torna cada vez mais distante do mundo real que o cerca. O filme parece ilustrar que a possibilidades de mudança da situação polonesa por meio do partido como pouquíssimo eficiente.
Na segunda possibilidade, a adesão ao movimento de oposição parece buscar responder um pouco do que foi posto na primeira possibilidade. Se não dá certo pelo partido, poderia dar certo pela resistência organizada. Witek vai tomar contato com os grupos de oposição, mas é neste momento em que ele mais terá problemas e precisará se dobrar em dois, a situação de constante ameaça e perseguição se mostram cansativas, levando a pressões para entregar seus colegas e também criando um clima de desconfiança muito grande. Tornando esta situação não tão eficiente em relação as anteriores, e de um custo pessoal muito alto.
Quando resolve adotar uma vida medíocre sem nenhum envolvimento com a política, Witek acaba sendo pego de surpresa por ela, sendo obrigado a tomar uma posição e tendo o final mais trágico de todos.
Podemos entender que Kieslowski buscava dialogar com a situação política da Polônia na época da filmagem, já que é nos primeiros anos de 1980 que o Solidariedade está com tudo, sendo o primeiro sindicato autônomo dentro do bloco socialista. Como era um momento de intensos atritos políticos, Kieslowski parece estar deixando claro que não havia muito como não se envolver ou se posicionar durante tais eventos na mesa. Também mais do que isso, fica no ar a ideia de que não se pode evitar alguns elementos, como no caso do filme pegar ou não o trem, e partindo destes elementos inevitáveis o roteiro se desenrola. No caso de Sorte Cega o elemento constante e que não se evita fugir é o elemento político, presente em todas as três possibilidades.

sábado, 8 de março de 2014

Clube de Compras Dallas - Jean-Marc Vallée (dir.)


Quando Michel Foucault morreu, se evitou por um tempo a relação entre seu óbito e a AIDS, quando Magic Johnson admitiu estar com HIV já faziam alguns anos que ele estava nesta situação, a lista não para por ai, Cazuza, Renato Russo, Freddy Mercury, todos eles evitaram tocar no assunto, seja em maior ou menor grau. O mais estranho é que a AIDS foi uma doença que carregou uma carga moral muito grande. Primeiro as pessoas que apresentavam a doença eram majoritariamente homossexuais, tornando personalidades como Rocky Hudson uma “decepção”, pois até então ele sempre fora posto como um exemplo de masculinidade, o filme ilustra isto nos seus primeiros minutos. Já basta toda homofobia, que acredito ser menor atualmente, que os homossexuais acabam lidando no dia a dia, doenças venéreas sempre acabam trazendo este cunho moral devido a nossa visão conturbada sobre o sexo. Imagine uma síndrome propagandeada como exclusiva a gays. Era tudo que muitos preconceituosos esperavam. E realmente utilizaram a AIDS como uma forma de atacar a comunidade homossexual, declarações como a de que era um flagelo de Deus não eram incomuns.
Neste sentido o Dallas Buyers Club me surpreendeu ao tratar da AIDS de uma maneira bem política, especialmente por se tratar de um filme holliwoodiano cujo ator principal faz geralmente o papel de algum galã, estar ali como o caubói bronco, pobre e fora de moda. Quando surgiu a doença ninguém sabia ao certo como ela funcionava e até hoje pouco se sabe de sua origem, a teoria mais aceita é a de que houve uma contaminação de caçadores ao tomarem contato repetido com o sangue de macacos infectados com uma versão animal do vírus, e as viagens aéreas somadas ao sexo casual sem preservativos se encarregaram do resto. Há também as teorias de que a doença foi criada para exterminar pessoas, especialmente homossexuais. De qualquer forma, quando ela chegou não se sabia muito bem o que fazer.
A princípio os preconceitos do caubói não lhe permitiam aceitar sua doença, o levando a negá-la até chegar num ponto crítico. Quando ele percebe que já não havia mais o que fazer, aceita sua condição e busca uma forma de sobreviver. A medicação que vinha sendo usada na época e parece ainda fazer parte do coquetel, era o AZT, como o filme bem coloca, esta é uma medicação complicada, pois de maneira resumida, parece atacar tanto o que há de ruim quando o que há de bom, causando uma série de danos colaterais terríveis. Ao tomar conhecimento disso, Ron Woodrof inicia com auxílio de um médico com licença casada (onde infelizmente o filme não explica a situação que levou à cassação) um tratamento alternativo com medicamentos proibidos de serem comercializados nos EUA. E é aqui que as coisas começam a se mostrar sujas.
Enquanto Woodrof está apenas interessado em financiar seu tratamento e estilo de vida com a venda de medicamentos que funcionam melhor que o AZT, não teremos grandes problemas, porém devido aos acontecimentos – em especial a morte de seu sócio – e a falta de medicamentos apropriados para o tratamento da doença, ele vai deixando de lado esta questão pessoal e percebendo que ela está para além de algo isolado, se dá conta de que mais pessoas estão numa situação tão desesperadora quanto a sua, pessoas morrendo, e o órgão regulador está muito mais preocupado em garantir o mercado de uma empresa do que manter estas pessoas vivas (um belo caso de biopolítica).
O absurdo, e que pouco debatemos sobre, é que o paciente acaba ficando sem direito de escolha sobre seu tratamento, obrigando-o a seguir algo que não necessariamente lhe traz resultados (havendo o risco de tomar até mesmo um placebo). Temos ilustrado muito bem no filme, como o governo e as grandes corporações, buscam controlar ao máximo a vida da população, de forma clara a garantir seus lucros, independente da vida biológica destas pessoas, e o mais impressionante, sob a alcunha de garantir um procedimento seguro de saúde. Temos o conceito de segurança utilizado como um instrumento de poder.
Talvez o Clube de Compradores de Dallas seja um dos filmes que trata de forma clara os problemas da gigante indústria farmacêutica, de longe a maior produtora de drogas e por onde passam milhões. Será que eles estão preocupados com a nossa saúde? Será que as correntes médicas apoiadas na forte medicação, seja para emagrecer ou até mesmo da criança “hiperativa”, estão mesmo preocupadas com a nossa saúde? Temos de deixar de ser inocentes e entendermos que as amostras grátis enviadas aos médicos não são pela preocupação com pessoas, afinal indústria se preocupa em ganhar dinheiro.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Elysium - Neill Blomkamp (dir.)


Elysium não surpreende muito. Os clichês de Hollywood estão ali, a historinha de amor, o herói que nunca morre, os vilões e os mocinhos claramente demarcados e o destino da humanidade em jogo. Sabemos como começa e como termina a narrativa. É um filme hollywoodiano afinal.
Porém alguns detalhes aparecem ali que acabam tornando Blomkamp uma novidade. Ele alcançou sucesso suficiente para entrar no clube americano do cinema depois do lançamento de Distrito 9. Pra quem não sabe, Blomkamp é sul-africano, e isso implica nas pequenas diferenças. A primeira delas e que pode até causar alguma empolgação, é que mais do que uma simples divisão entre bonzinhos e malvados, a sociedade futura ilustrada no filme é segregada entre ricos e pobres. Os pobres são condenados a uma vida miserável, sem grandes perspectivas e o mais importante, ficam de fora do clube saudável exclusivo para quem pode pagar pela eternidade e beleza. Independente da posição ou objetivo de Blomkamp, ele não maquia em nada a segregação financeira existente no mundo. Talvez pelo fato de ser da África do Sul, seja quase impossível ignorar esta questão.
As outras questões menores, porém significativas, tangem a questão da produção. No filme, mesmo que de maneira tímida, outras línguas são faladas, mesmo o inglês se mantendo o principal idioma, é aberta uma brecha para outras línguas. Pode parecer bobo, mas o termo “bárbaro”, tem origem numa questão linguística, mesmo que tal adjetivo esteja delimitando uma condição cultural. Uma língua implica numa cultura, numa forma de pensar, me arrisco até em colocar, uma outra estrutura. Talvez por isso os comentários comuns de que a atividade filosófica só possa ocorrer em língua alemã – o que discordo. Colocando estas outras línguas, o filme deixa de maneira mais clara de que além das diferenças econômicas, também existem as culturais. Se pensarmos isto a partir do fato de que é comum nos EUA remakes de filmes europeus pelo simples fato da maior parte da plateia estadunidense não gostar de filmes em língua estrangeira, demonstra de forma clara como um país lida com a cultura de outro povo.
Por esta ótica a grande resistência dos islâmicos é em aceitar um modelo cultural tão diverso do seu, e se apegar a religião acaba sendo uma forma de se apagar a uma identidade, de preferência uma que seja mais prática para a realidade visível. Se houvesse uma postura mais pluricultural, talvez tensões desnecessárias seriam evitadas. Não podemos ser demasiado otimistas, pois cair no relativismo cultural pode ser perigoso também.
O que temos afinal de contas em Elysium é um filme hollywoodiano que procura dialogar com outras linguagens. A contratação de atores de vários países, a aparição (mesmo que discreta) de outras línguas, a não negação da ainda existente divisão entre ricos e pobres, fazem com que exista neste filme uma maquiagem não tão carregada para falar de nosso tempo. Talvez por isso seja estratégico situar tais problemas numa ficção científica. No fim das contas Blomkamp consegue seu sucesso pelo fato de não ignorar os problemas de seu tempo.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

O tambor (filme)

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          Os tempos mais antigos parecem mais plurais. O Estado sempre se mostra mais “fraco” no passado, e nisto vale lembrar que a essência do Estado é autoritária. Talvez por isso tempos anteriores acabam dando brechas de sua pluralidade. Isso é o que me interessa no enclave formado pela cidade de Danzig/Gdańsk (local onde se passa o filme), esta possível pluralidade. Apesar da maioria alemã, o filme acaba ilustrando a relação constante entre cassúbios, poloneses, judeus e alemães. Cada um com seus costumes particulares, e especialmente sua língua. É na língua e na linguagem que podemos clivar diferenças, e talvez a diferença e a pluralidade sejam mais necessários hoje do que nunca, já que a globalização parece diminuí-las e com isso aguçar nosso desejo por ela.
          O grande elemento acaba sendo a decepção, ou negação de Oskar para com a sociedade ao seu redor, ou "mundo adulto", que simboliza de alguma forma o futuro que se anuncia. Lhe desagrada e assim sendo ele decide parar de crescer, negando assim a desagradável possibilidade que anunciada por este crescimento. Não por acaso que o sujeito que deseja marcar na soleira da porta o progresso da altura de Oskar, é o nazista mais fervoroso da miríade de personagens. Ele que está ansioso pelo crescimento de Oskar, é quem se volta ao nazismo de tal forma que acabará esquecendo de sua esposa, deixando de alguma forma o amor de lado. Totalizando sua vida em um único foco, como parece ter acontecido com a população de língua alemã durante este famoso episódio - os nazis tinham 90% ou mais de aprovação popular.
          Apesar de estarmos acostumados a assim enxergar o assunto, o nazismo não surgirá do nada, a Alemanha se mostrou durante muito tempo como uma nação altamente militarizada, assim como com uma ciência de ponta. Da mesma forma o ódio aos judeus, o orgulho alemão, campos de concentração, militarismo e patriotismo surgem antes de Adolfinho e sua trupe. Ao negar a vida adulta, Oskar negava também os adultos ao seu redor, e eles estavam encharcados nestes elementos. E é este desejo por tantas coisas que o nazismo se pretendia dar conta (a promessa de um mundo mais “belo”, por exemplo1), que acaba com todo o pluralismo possível no princípio do filme, e que depois vai se deteriorando junto com a própria cidade de Danzig. É o desejo por tornar Danzig alemã, que acabará destruindo ela, ou ao menos o que ela foi. A cidade era aquela mescla toda, e lidar com o que está seria mais produtivo do que simplesmente destruir tudo2.
          Uma rápida análise histórica pode ser válida. Teremos o autor da obra indo até o passado para pensar reflexões de seu tempo. O tema da segunda guerra não era estudado nas escolas alemãs até a segunda metade da década de 1970, ficando assim o assunto muito a margem, o que é de se espantar ao pensarmos o caso alemão e a importância do assunto. Entender o nazismo como algo mais do que maluquice ou babaquice das pessoas também seria um bom ponto, já que boa parte dos personagens acabarão tendo algum envolvimento com esta política. O nazismo foi construído historicamente e uma série de fatores históricos o possibilitaram neste período. Também é importante lembrar aonde o nazismo conseguiu chegar (morte, destruição, fome, ódio...). Uma saudade por tempos passados também aparece de alguma forma no desejo para que Gdańsk volte a ser parte do Reich (o que efetivamente ocorreu até que a guerra acabasse). Talvez Günter Grass desejasse advertir para alguns fantasmas que rondam o tempo passado, tão recente no período em que escrevera a obra. E talvez este "mundo adulto", negado ao princípio do filme, acabe sendo a causa de tanta coisa complicada que aconteceu. E quem sabe por isso, apenas ao fim da guerra, Oskar tenha finalmente decidido crescer, pois ai então o "mundo adulto" (o futuro dele, mas o presente anunciado) pudesse se mostrar mais promissor, apesar de todas cicatrizes existentes no corpo.

1 Para elucidar melhor a questão, seria interessante assistir ao filme: Arquitetura da destruição.
2A cidade de Danzig ganhará o status de autônoma depois da 1ª guerra ficando no meio do “corredor polonês”. Mais tarde ao fim da 2ª guerra, novas penalidades territoriais colocarão Danzig definitivamente em território polonês. Junto com essa penalidade houve um planejamento para evacuação da população de língua alemã desta região. Atualmente a Polônia tem uma das comunidades minoritárias de língua alemã mais bem organizadas do planeta, existindo ainda cidades bilíngues.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Os Anos de Chumbo - Margarethe von Trotta


          Em definitivo utilizar-se do militarismo para combater o fascismo é no mínimo uma ideia equivocada ou complexa. Soa nada destoante de pretensos partidos políticos e figuras bem intencionadas que pretendem mudar a sociedade utilizando-se do atravancado sistema político formal que temos hoje (votar a cada dois anos). Mas de alguma forma olhar para estas experiências pode revelar algo proveitoso.
          Por alguma razão a década de 1970 foi povoada por grupos guerrilheiros, da mesma forma que por forte repressão e autoritarismo, por isso o termo “tempos de chumbo” - por sinal título do filme – é comumente utilizado. Neste sentido a obra é muito feliz ao escolher duas irmãs experienciando de forma distinta as mesmas angústias. Não só pelo jogo duplo, já que temos duas pessoas com desejos semelhantes seguindo caminhos diferentes, mas também pelo fato delas serem mulheres. Discussões a parte, podemos afirmar que nossa sociedade é muito mais machista do que nos damos conta, e apesar deste machismo também oprimir o homem, para a mulher fica reservado um lugar menos glorioso.
         Não só é neste período que o progresso técnico vai marcar a história das mulheres, principalmente pelas pílulas, como também mulheres vão tomar a frente em vários movimentos. E o caso alemão não é diferente, dai que não por acaso a maior parte dos membros do grupo Baader-Meinhof eram mulheres. Das três grandes figuras, duas eram mulheres (Gudrun Ensslin, Ulrike Meinhof). Os movimentos feministas ganham muito gás neste período, ecoando a revolução sexual que ocorria.
          Algo que me fascina na figura do terrorista, especialmente sobre este da década de 1970 que sabemos alguma coisa, diferente do “sem rosto” islâmico, é o risco e mudança de identidade que ele assume. Constantemente vive-se no limite, podendo ser preso ou morto a qualquer instante. Uma prática comum era mudar seu nome, mudando assim também sua identidade1. Algo que, ao menos de longe, parece ser muito intenso e arriscado. Desfazer vínculos nunca é tarefa fácil. E arriscar-se demonstra ser algo cada vez mais complicado nos dias de hoje.
           Outro elemento é toda a capacidade de elaborar redes e formas de contornar todas as limitações colocadas pelo aparato policial. Regras como evitar soltar alguma informação durante as primeiras 24 horas de tortura (algo que os interrogadores sabiam, e assim sendo faziam dessas 24 horas as mais duras), sempre circular evitando, por exemplo, dormir duas vezes no mesmo lugar, criar campos de treino clandestinos, códigos secretos, imprimir e ler textos proibidos, entre tantas outras coisas, demonstram uma capacidade inventiva muito forte. Assim como de contorno aos obstáculos colocados.
          Um dado interessante é que no geral as pessoas que acabavam organizando-se de alguma forma contra estes regimes autoritários, contemplavam aquela larga faixa chamada de classe média. E sobre isso olhar por uma ótica um pouco diferente da colocada no episódio da invasão da reitoria da USP, onde tal estrato foi representado como adolescentes mimados, prefiro perguntar o que levou sujeitos com um possível futuro tão confortável e estático no horizonte, saírem de sua “zona de conforto”? Nisto o filme acaba retratando os dois lados, a atriz que conduz a história acaba fazendo a vez da garota que terminou sua faculdade e mantem uma relação saudável com seu marido profissional liberal, ambos possuem certo capital cultural e econômico. Enquanto sua irmã é a terrorista, constantemente no limite, sendo algumas vezes até mesmo arrogante e controversa. Porém ambas são tocadas pelo incomodo e descontentamento. O que ocorre é que acabam seguindo caminhos diferentes, mas ambos acabam se mostrando duros e provocantes.
          O saldo que podemos ter disto tudo é pensar o quão necessário é falar e discutir sobre este período, até porque aqui também houve guerrilha, autoritarismo e uma confusão danada. Assim como também pensar que aparato é este que dá cabo das pessoas? Seja simulando suicídios de presos, seja pela falta dessa coisa chamada humanismo, pelas frestas encontradas pelas pessoas e porque tais válvulas de escape acabam surgindo e são tão necessárias?

quarta-feira, 27 de junho de 2012

A era da Inocência - Denys Arcand (dir)¹


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Talvez antes tivéssemos mais. É difícil se posicionar no tradicional jogo do tempo e decidir se se prefere o passado ou o presente (enquanto o futuro se revela incerto). Dizer que a política já não existe mais ou de que está sem gás, talvez seja pura falta de visão para além de grupos partidários, pois movimentações não partidárias ou não arregimentadas aparecem cada vez mais, e vem se mostrando eficientes. Ou então colocar de que na política restou apenas frivolidades cotidianas, como o jeito que se escovam os dentes numa citação direta a Pondé, me parece também uma falta de visão para além de teorias totalizantes. Sabemos bem o que queremos, as vezes tão bem que acabamos caindo no pecado do cientista, o do foco excessivo. Porém falta algo mais em meio a política e a vida cada vez mais confortável – e estática – que galgamos ao longo do tempo.
Posso estar carregado de saudosismo, mas já indico que meu saudosismo com o passado se resume a uma máquina do tempo apenas para matar curiosidades e logo voltar. Entretanto o passado por vezes revela elementos distintos e que por vezes sejam interessantes. Mesmo vivendo em uma paz, uma não violência (física), incomparável com a Idade Média ou o mundo antigo, a falta de um desafio maior do que ascender em alguma carreira numa empresa de sucesso, ou a segurança de nossas rotinas acabam tirando algo do viver. Voltar ao passado se mostra uma conclusão de pouca reflexão, o que desejo é olhar para tempos passados o suficiente para mudar o presente. Dai a piada que muitas vezes possa parecer um retorno as histórias de cavaleiros. Precisamos de algo para lembrar que estamos vivos, e quiçá por vezes a dor sirva para isto.
E aqui entra Freud, autor que nunca li mais do que um ou dois textos, mas que parece evidenciar um dos inúmeros elementos modernos: a centralidade do sexo em nossas vidas. Podemos indicar o exemplo dos vitorianos, sempre tão vistos como gente que ignora o sexo. Entretanto é com eles que se começa a falar sobre o sexo como nunca, livros e trabalhos acadêmicos começam a surgir nesta época. Nossa opinião a respeito dos vitorianos se faz devido a nossa visão contemporânea sobre o sexo. Se me pedirem para indicar algo que indique a centralidade do sexo hoje, indicaria as comédias-românticas e suas inúmeras cenas envolvendo sexo ou em trocadilho direto.
Recordo que este texto é uma generalização, e para generalizar é necessário recorrer ao grosseiro.
Algumas vezes a vida só parece ter sentido graças ao sexo, as constantes utilizações de um vocabulário para “coisas boas” e sexo são recorrentes (orgasmo, gozar). Assim como uma fatal associação da palavra prazer. Parece que a única coisa que ainda faz muita gente se sentir viva é o sexo. O tempo e dinheiro que se dispende com isso é incrível, a atenção (desde Freud talvez) ao sexo está em um mesmo patamar. Me impressiona a necessidade cobrada das pessoas para que tenham uma vida sexual ativa. Celibato é muitas vezes sinônimo de piada. Talvez porque soe estranho abrir mão de algo (ao menos) visto como tão prazeroso. Não por acaso muita gente indique o sexo como uma necessidade tão básica quanto comer e dormir.
Entretanto podemos facilmente entrar numa crise ao percebermos esta limitação em que chega nossas vidas, percebendo que boa parte do viver está associado ao sexo. Resumir a vida a um único elemento soa desesperador, limitado, e logo aquilo que antes parecia indicar tão bem o quanto estávamos tão vivos, revela o quão previsíveis e repetitivos estamos. Então numa completa revolta podemos abrir mão deste elemento tão central de nossa vida moderna/pós-moderna/pós-pós-moderna, e nos darmos conta de que viver hoje em dia muitas vezes seja limitado. E talvez cheguemos a conclusão de que nos restou apenas o sexo por ainda não haver como nos privar de nosso corpo e nossa humanidade.
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¹ ou: "O que nos restou é o sexo". O texto não procura abordar unicamente o filme, mas sim reflexões que tem relação direta com a obra. Por isso recomendo assistir o filme, disponível aqui.