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terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Primer - Shane Carruth


Aviso: talvez seja melhor ver o filme antes de ler sobre ele.
Primer tem um roteiro base simples, que você já viu em outros filmes: a viagem no tempo. Conhecemos as possíveis implicações que isto traria caso sua possibilidade se concretizasse. As implicações são conhecidas e variadas, desde não cruzar com seu duplo e interferir na ordem das coisas, até a impossibilidade de ir para o futuro, já que ele ainda não aconteceu.
O que surpreende, é seu orçamento de sete mil dólares e a forma com que a história é contada. Shane Carruth é graduado em matemática e trabalhava no desenvolvimento de softwares antes de iniciar sua carreira cinematográfica, e isto faz diferença na forma com que o filme é feito. A primeira coisa, e para mim o ponto mais forte, está no fato de não haver simplificação nos diálogos, especialmente entre os dois protagonistas, mesmo quando eles discutem o aparelho que estão desenvolvendo. A descoberta é por acidente, e o acidente torna crível a descoberta dos dois amigos, eles acreditavam estar desenvolvendo algo como um redutor de peso. Como aprendemos na escola, o peso se altera alterando a gravidade e uma distorção no espaço-tempo distorceria a gravidade, logo mudaria o peso. Acidentalmente, o que ocorre no aparelho desenvolvido pelos dois amigos em sua garagem, é uma curta viagem no tempo, sempre 6 horas atrás no passado.
Em princípio a ideia era aproveitar esta vantagem para ganhar um bom dinheiro na bolsa de valores todos os dias, já que os dois são engenheiros em empresas privadas de desenvolvimento de tecnologia e sabem que o mais certo é serem demitidos quando sua vitalidade diminuir e seu salário aumentar, ali pelos 40 anos. São coisas como essa, que aparecem de soslaio ao longo do filme, que dão o toque de real para ele, que muitas vezes falta em outros filmes sobre viagem no tempo. Para reforçar esse ar de realidade e seriedade que temos ao longo de todo o filme, a estética sempre preza uma imagem complicada, pouco clara, confusa, nos produzindo um estado de pré-viagem com o tempo. A confusão narrativa é proposital, tomar contato com outras temporalidades que não a do presente, sempre nos produz uma sensação das mais estranhas – e como historiador devo dizer, das mais prazerosas também.
Desta forma, são pontos como esse, que para além do baixo orçamento de Primer, que usou e abusou de amigos e conhecidos de Carruth como atores e figurantes, bem como suas casas suburbanas, que tornam o filme interessante, conseguindo ser sério, nos prender e o melhor de tudo, não nos tratar como completos imbecis frente à tela. Afinal, se era preciso tratar de um tema já tão batido como a viagem no tempo, era necessário trazer algo de novo, Shane Carruth conseguiu.

 

domingo, 14 de junho de 2015

Neuromancer - William Gibson


Neuromancer é um daqueles livros terríveis de se ler, não pela experiência da leitura, mas sim pela dificuldade em encontrar algo próximo a obra depois de lê-la. Apesar do livro ser relativamente famoso e importante, tanto por carregar uma ficção científica diferente, quanto por constituir a base de tanta coisa genial como Blade Runner ou Matrix, muitas pessoas discutem porque até hoje não houve uma adaptação para o cinema desta obra. Realmente é um mistério.
O futuro desta ficção é um daqueles futuros desapaixonantes, marcados pelos anos 1980 (o livro é de 1984), onde a crença numa futura hegemonia japonesa era bem real e a aceitação da continuidade da União Soviética algo bem sólido. Gibson porém é um sujeito atento, e sabe ler mais do que as letras grandes. A china está ali, produzindo um vírus potentíssimo, o Brasil é um lugar importante, apesar de secundário sua potência econômica não pode ser ignorada e, os rastafáris coroam a obra com sua mística. Junto a isso temos o mercado de hackers claramente pautado no tráfico de informações e financiado pelo setor privado, apesar de termos os sujeitos institucionalizados, seja pela polícia Turner, ou pelas forças armadas. No meio disto temos também alguns desgarrados, que hackeiam por outros motivos mais variáveis. O que a meu ver, condiz em muito com a realidade. Fica a brecha para imaginar como se constitui este universo desconhecido dos hackers.
A história em si, é apenas divertida, seu desenrolar não traz grandes lições ou ensinamentos sobre a vida, isso contudo não lhe impede de transbordar possibilidades para o pensamento. É nos detalhes que cercam a trama, que as coisas se mostram interessantes. Um dos pontos seria a sua estética, muito bem marcada por um mundo subterrâneo, escondido, que mostra coisas para além da superfície, e sem dúvidas isto influenciou desde as obras citadas acima, como talvez até mesmo a série 2099 da Marvel ou quem sabe até mesmo Akira, o anime de 1988. Afinal, Gibson é frequentemente apontado como o pai do termo Cyberpunk. Junto a tudo isso, temos o constante uso de drogas, seja para aguentar as pressões do serviço (durante ou após ele), quanto para desenvolver um estado contemplativo, que seria o caso dos rastafáris. Dando uma abordagem mais realista, pois também não esconde todos os problemas advindos dai.
Além disso, a dominação total de elementos construídos pelo Homem dominarem a totalidade da dimensão, sendo uma planta ou carne “de verdade” um luxo, nos ajuda a pensar a proporção que desejamos tomar. O Sprawl é uma megalópole do tamanho de um país, e o que fazemos para evitar que isto não aconteça? Por fim, o peso real do mundo virtual, que nesta história pode ser até mesmo a causa mortis durante seu uso, é uma referência clara a interconexão das ações, por mais “virtuais” que elas aparentem, ou apenas uma forma de tornar a história mais interessante? Confesso que em alguns momentos, pode não haver muita distinção entre os dois mundos.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Interstellar - Christopher Nolan (dir.)

     Atrasado e sem pretensão séria de questionar o chato Oscar®. Admito, antes de tudo, que há alguma renovação acontecendo em Hollywood, afinal o negócio precisa continuar e para que isto ocorra, se adaptar é o mais usual. Mas, mesmo assim, boa parte dos filmes que ganharam prêmios só foram conhecidos pelo grande público após as indicações e prêmios recebidos. Interestellar já parece um caso distinto.
     Seu caráter de ficção-científica super bem produzida lhe garantiu um bom espaço nas salas de exibição, e não duvido foi assistido por muita gente. Filme espetacular, com atores bonitinhos e famosos, é verdade, mas uma das coisas mais importantes não pode ficar de lado: seu roteiro. Verdade seja dita, dos filmes que assisti, Interestellar foi o que conseguiu produzir o maior estranhamento e por isso foi o filme que mais gerou reflexão. Você pode citar Boyhood e os desafios cotidianos, mas ele não parece ir muito além da dificuldade em ser um indivíduo em constante transformação (sem falar que talvez leva muito tempo para mostrar isso, debates ao longo do filme não cairiam mal).
     A ficção-científica deve servir para pensar novas questões, já nos advertia Stanislaw Lem, ou vira mero exótico ou propaganda.
     Temos algum mérito pela questão da terra passar por um cataclismo ambiental, e isto se dar no campo da agricultura, afinal, encontrar qualquer alimento que não seja transgênico é um desafio, e pagá-lo seria um segundo. É justamente o milho um dos alimentos escolhidos, é justamente o milho que tem um dos códigos genéticos mais distorcidos. Mesmo que você observe que no filme este seria o único alimento a sobreviver, sua ruína está anunciada, e o que parece ocorrer é um movimento incompreensível. Ninguém sabe ao certo aonde isto vai dar. Junto com o milho temos as tempestades de poeira, evento que já ocorreu nos EUA durante a década de 1930, claramente por depredação do meio-ambiente e que exerce suas marcas até hoje. Temos um questionamento sobre como ajustar nossa produção de forma a sobrevivermos decentemente. Vale lembrar que a produção de alimentos é o setor mais agressivo ao meio-ambiente, seja pelo transporte, uso da terra e até mesmo pelos fertilizantes. Quando uma fábrica de fertilizantes causa problemas, é bom não estar perto. Isso que nem entramos no tabu do consumo de carne. Seguiremos.
     Também temos a escola, que revela seu caráter de produção de mão de obra, ao direcionar claramente funções para seus alunos antes mesmo que estes tenham demonstrado alguma clarividência sobre. Podemos ver também, na figura paterna e nos desafios feitos entre ele e seus filhos, a importância do conhecimento para além de algo prático e direcionado, se não fosse este olhar interessado, a comunicação com o “fantasma” jamais ocorreria e a trama não poderia se desenvolver sem este detalhe minúsculo. Confesso que me espanto com a tomada cada vez mais funcionalista e voltada para o mercado de trabalho nas discussões sobre educação, tudo isto numa sintonia ignorada com as reclamações de falta de inovação e preparo desses trabalhadores. Um salário final do mês, não é motivação suficiente. Percebemos algum questionamento sobre isso.
     O ponto central contudo é o tempo. Curioso como todos estamos inseridos nele, mas pouco pensamos sobre tal elemento ao longo de nossa vida. E normalmente, nas raras vezes que nos voltamos para o senhor do universo, enxergá-lo para além da mecânica do relógio parece um exercício mais penoso do que nadar contra a corrente. O fato de não estarmos limitados pelo tridimensional “real” já causa espanto. Distorções na rigidez cartesiana, tão clara em nossa forma de pensar, causa estranheza. Dobrar o espaço? Meu Deus, pode isso? Pode, afinal, ele é infinito e não tem forma definida. Imaginar mais de uma temporalidade é um desafio, especialmente quando historiadores pensam o passado. Bem sabemos que Benjamin já coloca esta simultaneidade e continuidade entre os tempos, mas lidar com isto é sempre um espanto. O Filme consegue colocar esta discussão de forma muito clara ao demonstrar que o tempo passa de forma diferente em cada lugar, as vezes lida com três tempos distintos. As ações desenvolvidas em cada plano temporal são reveladas independentemente, porém se mostram interligadas e num descompasso rítmico – os tempos são diferentes, mas um ritmo consegue se alcançado. Para pensarmos o tempo, é fundamental vê-lo além da mecânica, pois ele estaria além das três dimensões percebidas por nós.
     Recomendo o filme em especial para historiadores, estes sujeitos que pensam o passado e suas implicações no continuum temporal. Creio ser bem recebido por todos o reconhecimento de uma ligação entre o presente vivido e o passado que nos cerca, mas esta afirmação não facilita em nada reconhecer os pontos relacionais entre temporalidades tão distintas. Bem sabemos que o simples fato de dois eventos terem ocorrido numa mesma mecânica temporal (data, hora), não o explicam. Precisamos enxergar além da mecânica, do cartesiano.
     De fato é um filme que não responde as questões colocadas além da trama do enredo, mas negar que ele nos leva a refletir, seria desmerecer uma função tão valorosa e aparentemente não suprida em outros filmes tão premiados.

domingo, 21 de setembro de 2014

As crônicas marcianas - Ray Bradbury

O grande mérito da ficção científica é conseguir gerar reflexões. Geralmente tratam de questões presentes jogadas num tempo futuro, seja os totalitarismos em 1984 ou o enfraquecimento do hábito da leitura em Fahrenheit. Nem toda ficção científica vai por este caminho, apesar de adorar Star Wars, não temos ali muito mais do que uma aventura. Ray Bradbury é um dos mestres do gênero literário, está lá no panteão reservado a poucos autores e Crônicas Marcianas é um de seus clássicos.
O livro utiliza uma estética narrativa independente de personagens principais, e num formato de diário, contando episódios esporádicos que vão se interligando. A obra gira em torno do planeta marte. Creio que na época da escrita do livro, temos as primeiras sondas sendo enviadas sistema solar adentro, e as especulações sobre o espaço em alta, algo muito parecido com os contos de Philip K. Dick em O pagamento. Por isso podemos perceber no livro uma constante polaridade, já que o entusiasmo da exploração espacial trazia de carona a bipolaridade e o perigo da hecatombe nuclear.
As críticas contidas no livro ultrapassam a guerra fria e tocam muito bem no imperialismo. É justamente neste mesmo período de guerra fria que vários países do terceiro mundo (em especial na África) estão na luta pela independência com vistas em se recuperarem da destruição causada pelos invasores europeus. A lógica imperialista é algo muito particular aos europeus, apesar de elementos sangrentos em outros povos, o desejo de dominação e reconstrução de uma sociedade em um local distante, é algo bem específico e singular. Este desejo colonizador é comum em nossas narrativas, seja quando nós vamos até eles ou quando eles vêm até nós (uma invasão alienígena, por exemplo). Dominar, construir, transferir, não repetir os erros, usar este território descoberto como uma possível folha em branco, ignorando a vida ali existente.
Bradbury monta seu texto com base neste desejo incontido de dominar, subjugar e moldar uma outra sociedade a “nossa” maneira. O colonialismo é o episódio mais famoso deste pensamento destruidor e intolerante, mas se olharmos para a guerra fria, perceberemos que as intervenções diretas em lugares como Vietnã, Budapeste ou América Latina, estão intimamente ligados a este desejo dominador. Acredito que o autor pode servir de apoio para uma reflexão que busca evitar esta postura política, tão marcada em nossa forma de pensar. Afinal de contas, é uma destruição consciente de elementos tão ricos, como o que fizeram com os africanos, em especial os escravizados, que tiveram suas culturas amassadas a ponto de tratarmos vários grupos tão distintos de uma mesma maneira. A pluralidade não é algo novo, o multiculturalismo é algo mais atuante do que se afirma, por isso ainda é importante buscar essa reflexão, mais tolerante e menos assassina.

sábado, 1 de março de 2014

V de Vingança - Alan Moore (roteiro)


É impressionante como algo tão subversivo pode ser tão bem absorvido pela cultura pop e de massa atingindo um nível de produção industrial e vendável tão grande. Em praticamente qualquer lugar que haja um descontentamento com o governo, veremos pessoas utilizando a máscara de Guy Fawkes, imortalizada em V de Vingança. O Curioso é que antes do filme o quadrinho parecia ter ficado um tanto quanto no limbo. Havia sido lançado no Brasil com poucas tiragens e edições, sendo uma obra rara até pouco tempo atrás, quando esta edição que comprei invadiu as bancas e livrarias. Ótima estratégia de marketing.
Na entrevista dada anos posteriores ao lançamento, o roteirista Alan Moore fala que sua visão ainda era muito inocente e até mesmo otimista, pouco clara em alguns momentos. Nada disto tira o mérito do lindo roteiro escrito por ele, mas boas histórias também merecem alguma discussão.
O contexto de produção desta obra é os anos Tachter, marcados por um forte avanço do conservadorismo e da direita no Reino Unido, que apesar do seu crescimento econômico, não revelou uma melhora significativa para a população. Moore via no governo de Tachter uma ameaça possível, que por sinal pode atacar qualquer um a qualquer momento: o fascismo. Como a Guerra Fria ainda não havia acabado, fazia sentido em ver no governo o grande vilão, afinal é entre os Estados que vemos as ações mais complicadas sendo articuladas neste período, seja a guerra das Malvinas, proibição de usar calças jeans ou a espionagem e sabotagem, tanto a direita quanto a esquerda cometeram atos falhos por meio do Estado.
Em nome de uma pretensa ordem, Tachter passou por cima de várias conquistas que o povo inglês demorou anos de luta para conseguir. Como toda boa ficção científica, podemos perceber um grande exagero de situações presentes sendo jogadas para o futuro. Afinal o que nos impede de ver na violenta supressão a uma greve de mineiros (bem ilustrado em Billy Eliot) levar a supressão de outras liberdades, como a de ler e ouvir o que quiser, até o que farás com teu corpo, quem você quer beijar. Apesar do exagero, não podemos descartar a possibilidade de cairmos em fascismos. Temos uma direita ilustrada ali que não se preocupa em passar por cima de tudo para garantir o controle e a condução dos eventos. Ele sabia que sua ameaça real não era a KGB, mas sim Tachter e seu grupo. Afinal, Alan Moore morava na Inglaterra dos anos 1980, e não na URSS.
O grande acerto de Alan Moore é que as pessoas tem seu caráter particular, cada uma delas. Ou seja, não se pode prever com exatidão o que ocorrerá dentro de um período muito largo de tempo. E mesmo em curto espaço de tempo, as previsões nunca são algo certeiro, definitivo. Dai que revoltas populares são algo possível de ocorrer, e por mais que os jornalistas despreparados da impressa que temos dominando o Brasil afirmando, estas revoltas não são cíclicas1, elas ocorrem por motivos reais, o porém é a incerteza de prever até onde a população suportaria a pressão. Quanto tempo uma cidade aguenta sem mobilidade, sabendo que isso é possível e há dinheiro em caixa para isso?
Porém Alan Moore já nos alertou de sua visão demasiado “inocente” da época. Os acontecimentos recentes do Brasil nos mostram isso também, apesar dos protestos seguirem, a população se acalmou, afinal uma consciência política não desperta do nada, ela demora algum tempo e demanda algum esforço, tal qual qualquer outra atividade. Por isso se mostra muito otimista acreditar que num belo dia a população consiga se levantar contra o governo e após isso construir um novo e melhor governo. O que tento explicar aqui não é da impossibilidade disso, mas sim de que isto necessita um esforço enorme, e os tropeços haverão.
Por fim, V de Vingança acaba sendo tão bem aceito pelo fato simples de “vender” a Revolução. A ideia revolucionária é algo que está muito forte na nossa mentalidade, quase que independente da idade ou estrato social. Revolução e liberdade acabaram se tornando termos muito fortes, por mais complicados que estes termos sejam de se explicar.

1Só para constar, afirmar que algo na história é cíclico, tal qual alguns jornalistas defendem na impressa, são demonstra despreparo prático e intelectual, e claro, desconhecimento histórico. Temos uma desculpa furada para justificar alguma coisa mais macabra que os protestos, como uma ação policial (violenta).

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O Pagamento - Philip K. Dick


As histórias de Philip K. Dick trazem mais do que simples aventuras, há questões sendo trabalhadas ali. Parece que hoje em dia o gênero se resumiu a receita de filmes como Star Wars ou Star Trek. Não desenvolvendo questões mais profundas do que a luta do Bem contra o Mal no meio de “muita aventura”. Diverte, é legal, mas pouco traz de novo. Stanislaw Lem, autor de Solaris, já percebia isto durante os anos 1970 e por isso acabou largando ao longo do tempo a ficção científica e se decepcionando com o que ela poderia se tornar. Talvez pelo fato das histórias pouco comuns de Dick, ele não parece ser um autor muito lido entre os brasileiros, apenas pessoas que querem ir além dos clássicos 1984, Fahrenheit 486 e Admirável Mundo Novo.
Há também o fato de que Philip K. Dick é o autor com o maior número de roteiros adaptados para o cinema. Os filmes adaptados a partir de histórias do Dick são variados, como está na chamada da capa deste livro, temos “O Pagamento” e “Minority Report: a nova lei”, porém clássicos como Blade Runner e filmes com atores tão ilustres quanto Arnold Schwarznegger fazem parte deste confuso mosaico. O que rola sempre, independente da qualidade da adaptação – ou atuação – é que suas histórias são mais do que uma aventura. Philip Dick cursou filosofia, e mesmo sem ter terminado seu curso, isto parece significar algo.
O curioso deste livro encontrado num sebo é a quantidade de contos, que acredito eram até então em sua maioria inéditos no Brasil, estes contos possuem abordagem variada. Infelizmente não houve um cuidado em indicar o ano da publicação desses contos, o que pode ser esperar muito de um livro com vários erros de grafia e digitação – supostamente aproveitaram a onda de algum filme para lançar algo que estava na gaveta e possivelmente não daria nenhum lucro sem a existência do cinema.
Um elemento notável é que a ficção científica não está preocupada com o futuro, mas sim com o seu presente. Em 1984 a preocupação é com o totalitarismo, em Fahrenheit é o abandono do hábito de leitura em detrimento da popularização da televisão e em Admirável Mundo Novo percebemos uma preocupação com uma rápida modernização da sociedade, destruidora de coisas também tão bonitas quanto o moderno. Em muitos contos contidos aqui está no ar uma eminente guerra que pode destruir todo o planeta. Ora, Dick começou a publicar durante a Guerra Fria e tanto URSS quanto EUA tinham (tem) poder de fogo para destruir o planeta Terra mais de uma vez. Esta constante ameaça de guerra está nos seus contos, uma visão pessimista do futuro a partir do presente que se vive. A ciência acaba sendo o campo de descoberta e meio termo entre a destruição e a esperança, afinal é devido a uma máquina do tempo que se pode roubar os planos secretos de algum cientista que desenvolverá alguma arma muito poderosa no futuro.
Entretanto resumir seus contos a esta tensão existente na época, não impediu Philip Dick de escrever sobre outros temas. Uma colocação que já está mais evidente em seu romance Os três estigmas de Palmer Eldricht, é sobre a tal da vida mundana. Provavelmente após a declaração de Stanislaw Lem de que Dick era na época o único escritor estadunidense ativo louvável de ficção científica, o americano escutou a crítica do polonês de que quando muito a ficção científica abordava no máximo a problemática da Guerra Fria. Por isso percebesse que o americano foca em sua realidade e a guerra destruidora começa a perder espaço para a dominação de empresas e o tédio da vida cotidiana – tudo isto com a desolação do planeta, seja por uma guerra ou seja por alguma catástrofe ambiental ao fundo, não podemos esquecer. A vida se torna um produto, ou uma forma de obter lucro. Assim que temos o momento chamado de pós-guerra, a população do mundo inteiro começará a ter um acesso cada vez maior a bens de consumo antes impensáveis como: automóvel, televisão, aspirador, liquidificador, geladeira, ar condicionado, micro-ondas, shampoo, preservativos, comida industrializada (congelada). A partir de todo este acesso, ocorreu uma adoração a certos bens ou marcas, os produtos vão ganhar personalidade. É partindo dai que várias vezes os personagens de Dick fazem de tudo para conseguir algum produto, seja ele uma boneca, tabuleiro ou droga.
O conto mais forte talvez seja o do sujeito aficionado por seu trenzinho no porão, o que ele deseja é uma fuga. Ao mesmo tempo sua mulher quer alcançar o modo de vida ilustrado em propagandas ostentar felicidade mais do que usufruir dela. Ele odeia seu emprego, a cidade e sua vida. Em sua maquete por onde passeia o trem ele pode reconstruir da forma que mais lhe apetece, podendo ter alguma escolha para si que seja maior do que trabalhar e ter seus valorosos finais de semana passeando em algum carro até algum resort caro. Ou talvez só queira voltar para sua infância, quando as pessoas pouco se importavam com ele. De qualquer forma, o que temos é um questionamento da realidade que se vive mais do que da realidade possível de uma guerra eminente entre dois superblocos. Nestes últimos contos do livro este tipo de roteiro se torna mais recorrente, e podemos perceber uma obra mais madura de Philip K. Dick, um dos maiores escritores de ficção científica, sem sombra de dúvida.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Solaris - Stanislaw Lem


Stanislaw Lem pretendia utilizar a ficção científica como um lugar de debate. Se pegarmos clássicos como Orwell, Huxley e Dick, podemos perceber que a discussão sempre está ali, seja de nossa sociedade ou seja de nossa existência. Por isso o autor demonstra sem nenhuma timidez seu conhecimento enciclopédico, afinal, mais do que uma boa história ele desejava algo mais. O gênero Romance possui este caráter didático.
Pode parecer contraditório, mas desde que o Homem ocidental trocou a Terra pelo Sol no centro do universo, os estudos humanos cresceram e tomaram o exemplo do homem vitruviano de Da Vinci usando o ser humano como a forma de todas as medidas. Apesar de aceitarmos a posição do Sol, este deslocamento espacial está ligado a um deslocamento antropológico: nós somos o centro, somos a imagem e semelhança de Deus, somos os donos do mundo. Junto com o sol, os cafés começam a ter mesas cada vez menores, algo muito distinto daquela mesa grande onde todos se sentavam apenas buscando um lugar vago. Da mesma forma que em cafés, independente do lugar ocupado, o ego observador e julgador, seria a medida das coisas – o normal – neste flaneur.
As explorações espaciais quando do lançamento do livro (1961) eram ainda algo novo, porém a exploração do espaço sempre foi algo fascinante, e de certa forma nos desloca deste centro imaginário que acreditamos estar. Desde que estas aventuras espaciais começaram não deixamos de perguntar se existe vida fora da Terra. Certa vez li um declaração de Carl Sagan dizendo que seria muito esnobe acreditar que em toda esta vastidão do universo, que ainda não conseguimos entender ou desvendar direito, somos os únicos abençoados com o dom da vida. A afirmação de Sagan é clara em afirmar ironicamente que existe sim vida fora da terra. Como ela é? Bem, Solaris parece discutir isso, e provavelmente esta vida estaria bem longe de qualquer forma de vida existente na Terra. Aqueles extraterrestres humanoides que aparecem nos filmes, pode esquecer eles. Solaris é o ponto chave nisto tudo, é um planeta ou um ser-vivo? Tudo indica que o Oceano de Solaris tem vontade e não apresenta comportamento regular, como a Terra e suas estações do ano.
Apesar das incertezas sobre o planeta, pois em momento algum fica claro o que seria Solaris, e o termo ser-vivo parece ser o mais exato, mesmo não sendo uma resposta concisa. Quando imaginamos uma forma de vida além da humana, o Homem Vitruviano aparece em cena como a medida de todas as coisas e imaginamos seres semelhantes a nós, e Solaris acaba demonstrando que isto é um belo engano. Solaris seria uma forma de vida inteligente e completamente diferente que qualquer outra coisa já vista pelo Homem. A Solarística citada no livro é a ciência que tenta estabelecer contato com Solaris. Este último por sua vez sempre fica ignorando aqueles sujeitos minúsculos na estação.
O que me chama a atenção é o caráter psicológico da trama. O personagem principal seria um psicólogo, o planeta é envolto por um Oceano (termo freudiano), e os visitantes que surgem no livro são pessoas ligadas a questões puramente intimas, guardadas na profundeza do consciente de cada um dos personagens. Estes visitantes por sua vez se parecem fisicamente com os humanos, mas os exames feitos por Gibariam comprovam que nada mais são do que moléculas, ou seja, não possuem órgãos, funções vitais (não morrem ao ingerir oxigênio liquido por exemplo) e por isso não sentem fome. Mas o medo, a solidão e o pensamento estão presentes. Há uma certa independência por parte dos visitantes, nada excepcional, mas que se desenvolve com o tempo. Rheya não gosta de saber o que ela é.
Por fim o grande questionamento é justamente este de nos acreditarmos a medida de todas as coisas, que devemos aprender a respeitar outras formas de vida que não a nossa. Boa parte dos argumentos para o consumo de carne, por exemplo, se justificam sobre este especismo. E quando nos deparamos com uma forma de vida diferente da nossa, e que pode ser tão poderosa a ponto de sondar a nossa mente até os lugares mais profundos, ficamos sem reação. Talvez o homem deva descer desta estação espacial imaginária e aceitar que diferentes formas de vida também existem e são conscientes. Fico em dúvida se a ideia final é a de que podemos nos perder em nossas próprias criações, já que toda confusão vêm do subconsciente dos cientistas daquela estação. Todavia as minhas reflexões sobre Solaris não estão consolidadas – e talvez nunca estejam. Infelizmente Stanislaw Lem é um autor praticamente ignorado fora da europa central e terras mais ao leste.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Elysium - Neill Blomkamp (dir.)


Elysium não surpreende muito. Os clichês de Hollywood estão ali, a historinha de amor, o herói que nunca morre, os vilões e os mocinhos claramente demarcados e o destino da humanidade em jogo. Sabemos como começa e como termina a narrativa. É um filme hollywoodiano afinal.
Porém alguns detalhes aparecem ali que acabam tornando Blomkamp uma novidade. Ele alcançou sucesso suficiente para entrar no clube americano do cinema depois do lançamento de Distrito 9. Pra quem não sabe, Blomkamp é sul-africano, e isso implica nas pequenas diferenças. A primeira delas e que pode até causar alguma empolgação, é que mais do que uma simples divisão entre bonzinhos e malvados, a sociedade futura ilustrada no filme é segregada entre ricos e pobres. Os pobres são condenados a uma vida miserável, sem grandes perspectivas e o mais importante, ficam de fora do clube saudável exclusivo para quem pode pagar pela eternidade e beleza. Independente da posição ou objetivo de Blomkamp, ele não maquia em nada a segregação financeira existente no mundo. Talvez pelo fato de ser da África do Sul, seja quase impossível ignorar esta questão.
As outras questões menores, porém significativas, tangem a questão da produção. No filme, mesmo que de maneira tímida, outras línguas são faladas, mesmo o inglês se mantendo o principal idioma, é aberta uma brecha para outras línguas. Pode parecer bobo, mas o termo “bárbaro”, tem origem numa questão linguística, mesmo que tal adjetivo esteja delimitando uma condição cultural. Uma língua implica numa cultura, numa forma de pensar, me arrisco até em colocar, uma outra estrutura. Talvez por isso os comentários comuns de que a atividade filosófica só possa ocorrer em língua alemã – o que discordo. Colocando estas outras línguas, o filme deixa de maneira mais clara de que além das diferenças econômicas, também existem as culturais. Se pensarmos isto a partir do fato de que é comum nos EUA remakes de filmes europeus pelo simples fato da maior parte da plateia estadunidense não gostar de filmes em língua estrangeira, demonstra de forma clara como um país lida com a cultura de outro povo.
Por esta ótica a grande resistência dos islâmicos é em aceitar um modelo cultural tão diverso do seu, e se apegar a religião acaba sendo uma forma de se apagar a uma identidade, de preferência uma que seja mais prática para a realidade visível. Se houvesse uma postura mais pluricultural, talvez tensões desnecessárias seriam evitadas. Não podemos ser demasiado otimistas, pois cair no relativismo cultural pode ser perigoso também.
O que temos afinal de contas em Elysium é um filme hollywoodiano que procura dialogar com outras linguagens. A contratação de atores de vários países, a aparição (mesmo que discreta) de outras línguas, a não negação da ainda existente divisão entre ricos e pobres, fazem com que exista neste filme uma maquiagem não tão carregada para falar de nosso tempo. Talvez por isso seja estratégico situar tais problemas numa ficção científica. No fim das contas Blomkamp consegue seu sucesso pelo fato de não ignorar os problemas de seu tempo.