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quarta-feira, 8 de março de 2017

Planeta Favela - Mike Davis



O assunto das favelas é pouco e mal debatido, muito provável por ser um assunto desagradável, relevamos para segundo plano um assunto vital para a discussão urbana. Mike Davis produziu este trabalho sintético sobre o panorama das habitações irregulares, chamadas de favelas no Brasil, mas que conseguem encontrar um termo específico em cada lugar: villas, pueblos jovenes, Slum, etc. O quadro geral e desesperador, se temos uma pequena fatia nos países europeus em habitações irregulares, não podemos esquecer de olhar para os locais onde se encontram a maior parcela da humanidade, os chamados países subdesenvolvidos e sua gigantesca população vivendo em locais miseráveis. Se isto se aplica ao Brasil, que como arredondou Bárbara Freitag em Teorias da cidade, temos 50% da população morando em habitações irregulares ao incluirmos também os cortiços, puxadinhos e quartinhos escondidos e absorvidos pela pesada estrutura urbana das cidades, a situação é muito mais crítica em locais como a Índia ou o continente africano. Curiosamente, também são países com um volume populacional maior, e uma estrutura estatal mais frágil.
Um dos pontos fundamentais que Davis traz para a discussão está num dos problemas que acredito serem fundamentais nesse princípio de século XXI, debatido à exaustão em períodos anteriores, foi posicionado como assunto de menor importância nos últimos trinta anos: a questão do Estado. Dada a euforia modernista do pós-guerra, tivemos um período relativamente extenso de destaque para a arquitetura moderna. Brasília é concebida neste período, bem como a ideia de conjuntos habitacionais. Grosso modo, os conjuntos habitacionais foram a saída encontrada pelos variados governos, tanto nos blocos socialistas como capitalistas da época, para a questão da habitação, dado que haviam dois problemas, a destruição causada pela guerra (questão muito mais séria na Europa e sua parte leste) e o chamado baby booming, também conhecido como explosão demográfica, possível por coisas como maior expectativa de vida, redução da mortalidade infantil e não desconsidero elencar um certo otimismo para com o futuro. De qualquer forma, o problema era simples, faltava habitação decente para toda a população. Para piorar, é ao longo do século XX que vemos o mundo deixando de ser rural para se tornar urbano. Os conjuntos habitacionais começam a demonstrar seus problemas, o modernismo adotado sem um postura crítica busca simplesmente suprir um problema numérico/matemático e coloca de lado a questão humana. Não demora observamos conjuntos habitacionais que são verdadeiros pesadelos, vemos isso em filmes como Clockers de Spike Lee, ou em histórias como a de Christiane F., todas com uma importante ambientação em torno destes grandes complexos de concreto armado. Desta forma, a forma com que se aborda a questão habitacional muda, de uma abordagem onde o Estado era o principal agente, para uma abordagem de financiamento e individualização.
Este é o ponto chave em torno da discussão que ocorre no livro. Em primeiro momento, olhando para a política de Estados como agentes para a resolução dessa carência habitacional e sua resolução em torno de conjuntos habitacionais, apresentarmos uma política de liberação de crédito parece muito mais sensata. Temos aqui uma questão para a qual eu sou simpático, já colocada por Braudel que é a de não olharmos para a história seduzidos pelo acontecimento, pelos períodos curtos, é necessário uma certa densidade histórica e por isso a atenção para períodos mais longos. E com isto, podemos esticar nossa observação para o momento em que a política de liberação de crédito (vide Minha casa, minha vida) é adotada em detrimento da de um Estado enquanto agente direto. O que vamos observar é um problema habitacional agravado, e um gasto maior de dinheiro. A ideia em princípio interessante, de liberar crédito para que as pessoas individualmente melhorassem sua habitação, ou financiassem uma nova, revelou-se um grande problema.
Desta forma, o que se reforçou foi a principal causa de carência habitacional, a especulação imobiliária. Injetando dinheiro no mercado, sua reação é aumentar os preços. E as famílias que conseguiram sair de favelas, não hesitaram em alugar seus barracos, ou vendê-los, e desta forma a habitação precária continuou sendo utilizada. Com o aumento de preços, sair da situação precária se tornou um desafio ainda maior. De certa forma, não é algo diferente do que vimos em programas como o famoso Minha casa, minha vida, que trazia uma opção de financiamento atraente em relação aos outros programas (privados), mas não garantiu moradia decente, seja no sentido técnico da coisa (qualidade do material usado, seguimento de regras básicas da ABNT, etc), seja no sentido social, humano (locais distantes, sem comércio próximo, estresse diário com deslocamento para o trabalho, etc). Não podemos ignorar, que uma parte deste problema também está ligado a uma questão cultural, de que as classes mais abastadas simplesmente desejam distância de classes menos abastadas, isto é uma questão sem explicação racional, mas que encontra sua justificativa nos sentimentos de repulsa, nojo e medo. Com isto, podemos debater através deste livro a situação atual das precárias habitações em que vivem a maior parcela da humanidade, bem como constatar o fracasso e a necessidade de buscar novas políticas públicas para habitação que não sejam a construção de grotescos conjuntos habitacionais ou caros financiamentos e liberação de crédito.
Uma parte do ensaio que está no final do livro.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

A cidade polifônica - Massimo Canevacci


A cidade emite sons. A cidade comporta mais elementos do que sua forma física. A cidade é polifônica, pois não se constitui de maneira heterogênea. Como o próprio nome indica, Massimo Canevacci vai procurar decifrar os sons, significados e linguagens na cidade de São Paulo durante a década de 1980. Estamos falando de um momento muito particular, se por um lado temos a redemocratização, de outro temos um país de capital cada vez mais aberto. Tudo isto reflete no urbano.
A grande sacada do autor com este livro, é sua atenção para a comunicação urbana. Esta comunicação não é a entre duas pessoas, mas sim a da cidade, de seus prédios. Assim como os outdoors, as construções também têm signos. Como a cidade comporta mais do que um tipo de gente, temos vários sons sendo produzidos. De alguma forma é a dialética silenciosa da cidade, onde devagarinho uma construção é derrubada, sua fachada, estrutura e toda composição arquitetônica, construída num tempo e carregada com seus significados, perde seu lugar para que se construa algo novo, com outros significados e objetivos. Vemos isso o tempo todo e acabamos não nos dando conta, afinal, pelo menos uma vez você passou por um lugar e se deu conta que uma antiga construção já não estava mais lá, e sim algo completamente diferente. Se por um lado vemos moda nas construções, onde numa época se fixam pedras na parede, noutra o uso de cobogós e brises ao exagero, até as calhas escondidas e os gesos no teto das casas, tudo isto carrega significado, quer dizer alguma coisa, não fosse assim, da onde a maçante presença do “eme” amarelo daquela cadeida de fast-food? Ou o que dizer das novas assembleias e templos de Salomão? Não podemos esquecer dos condomínios e dos shopping centers, que parecem todos feitos pela mesma pessoa, já que seu desenho pouco muda. Para completar temos as construtoras que fazem questão de cunhar sua marca em suas construções, pois assim vendem algo mais do que apartamentos e salas comerciais.
Tal qual uma orquestra, devemos perceber na pluralidade de sons qual é o significado, o que se está querendo dizer em meio a essa polifonia. É um livro chave para percebemos no caos cotidiano do urbano um sentido. Desta forma podemos ler o urbano, enxergar suas nuances, suas frestas e até suas fachadas. Pensar o plural, não quer dizer aceitar um vazio de significado, eles estão ali, em disputa, em hibridização, em evidência ou em esquecimento.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Teorias da cidade - Bárbara Freitag

     O livro de Bárbara Freitag é basicamente uma passagem geral pelas principais questões teóricas já produzidos sobre a cidade. Dividindo em três escolas, somos apresentados de maneira mais sistemática aos campos teóricos alemão, francês e inglês (RU e EUA incluídos de maneira distinta). De fato, não caracterizar estes como os campos mais influentes, seria descabido, e desta forma a abordagem sobre o Brasil fica reservada para o final.
     Acaba se revelando uma boa obra para por em diálogo o leitor e as teorias urbanas, pois condensa e apresenta os contornos das linhas teóricas mais influentes. Mesmo não se aprofundando em nenhum elemento específico para além de apresentar estes autores e seu pensamento, podemos deixar de lado a prática acadêmica da crítica e observar os pontos úteis em tal obra. Sobremaneira acaba se mostrado uma boa ferramenta para imaginar pontos de partida, assim como condensar alguns elementos tão densos quanto a teoria sobre as cidades e o próprio urbano.
     Me despertou atenção a escola anglo-saxã, que eu confesso sempre ignorei por puro capricho, e como ela se constituiu como uma das mais marcantes no campo prático das cidades, e aqui me refiro a sua construção física. Salvo exceções, como é o caso do gigante Le Corbusier, a escola anglo-saxã acabou ganhando mais espaço e eficiência no momento de articular teoria e prática (algo não dissociado, mas nem por isso menos conflituoso). Não podemos ignorar elementos como o fato de ter sido Thomas Morrus quem cunhou o termo Utopia, e ao mesmo tempo ser entre os anglo-saxões que teremos o conceito de cidade jardim sendo moldado e construído. Essa atenção deve ser observada com a ressalva de meu desconhecimento.
     De qualquer forma o ponto mais interessante e produtivo é a articulação feita ao final do livro, em que as recepções teóricas são trabalhadas no contexto brasileiro. Podemos afirmar que de maneira geral, o campo teórico nacional é baseado no arcabouço teórico estrangeiro, sem contudo deixar de colocar os elementos e especificidades nacionais em pauta, criando desta forma um pensamento original – problematizado pela autora a partir da perspectiva apresentada de Ronald Daus. Vale muito a pena estes dois últimos capítulos, pela clara articulação com o conteúdo anterior, tão distante por sua teoria e geografia de origem (Europa), com a realidade brasileira e latino-americana. Podemos dizer que a obra se encerra no momento certo, pois estes dois últimos capítulos são o ponto de partida para o atual, e eles permanecem inconclusos e não-superados.
     Aponto um certo desconhecimento de teorias mais recentes baseados na obra de Deleuze-Guatarri, e sua perspectiva rizomática, já bem digeridos e pensados para o contexto brasileiro por Paola Berenstein Jacques em a “estética da ginga”, publicado poucos anos antes da obra de Freitag. E confesso que não sei se ter ignorado tal perspectiva sobre o estudo das cidades ocorreu por desconhecimento, discordância ou sou eu que tenho uma visão entusiasmada sobre esta questão.

domingo, 20 de outubro de 2013

Estruturalismo: Antologia de textos teóricos - Eduardo Prado Coelho (org.)


Ou, Para Ler o estruturalismo

Durante minha formação acadêmica as palavras estrutura e estruturalismo, apareciam junto a seus derivados de maneira recorrente. Autores como Lévi-Strauss, Lacan, Sartre, Barthes, Derrida, Foucault e outros associados em maior ou menor grau ao estruturalismo eram e continuam sendo recorrentes. O uso da palavra estrutura para definir mais do que alguma questão arquitetônica, ou seja, física, é usado constantemente e parece não despertar grandes dúvidas. Toda vez que se procura explicar alguma questão social, mesmo por pessoas fora dos círculos acadêmicos, expressões como “família desestruturada”, “falta estrutura emocional”, “não houve uma estrutura na formação do caráter”, procuram determinar aquela situação ou sujeito. A indagação pessoal surge quando começo a estudar as cidades, o que coincidiu com as notícias da Copa do mundo no Brasil. Começou-se uma corrida pela “estruturação” do país. Podemos perceber que desde a implantação de questões urgentes como o transporte público até a criminalidade, começaram a passar por algum tipo de estruturação ou re-estruturação. O uso dessa palavra está associado a muito mais do que uma questão arquitetônica. Antes de continuar, vale lembrar de que a arquitetura é afinal de contas uma ciência que têm como objeto o homem, já que é ele quem vai habitar e produzir aqueles lugares, aquela estrutura. Com estas questões postas, ler o estruturalismo hoje de uma forma consciente possa nos ajudar. E sobre isto é importante deixar claro que a intenção aqui não é resgatar o estruturalismo, mas sim entender um pouco melhor o que foi isto.
O estruturalismo será a grande teoria do pós-guerra. Autores sem fim se associam em menor ou maior grau a este bastião teórico. O curioso é que não existe uma definição muito lógica do estruturalismo. O conceito mais próximo é a estrutura no seu sentido arquitetural, aquilo que sustenta, que dá a base para todo o resto da construção. Em alguns autores esta questão parece mais rígida, como se uma grade procurasse definir as formas, e para outros nem tão definida e determinante. Ocorre que é nítido após a segunda-guerra mundial um uso cada vez maior desta coisa que é o estruturalismo. Segundo aponta François Dosse1 a arregimentação dos intelectuais em torno deste aporte teórico ganha magnitude após a supressão da revolução húngara de 1956, onde o modelo socialista-soviético-stalinista é posto em xeque e começam a buscar uma alternativa ao marxismo, doutrina oficial do Partido Comunista Francês ao qual estavam associados (formal ou informalmente) vários estudiosos franceses.
Apesar da vertente marxista do estruturalismo, representada principalmente por Althusser, Karl Marx deixa de ser uma noção essencial para aquela época. É visível um forte apego aos estudos de Marx após a Segunda Guerra em especial pelas necessidades e questões postas por este momento histórico, dentre elas o nazismo, porém a revolução húngara traz novas necessidades. Mesmo com este abandono do marxismo (do qual somos herdeiros cada vez mais sinceros) não podemos ignorar que pelo menos um pouco do conceito de estrutura vêm deste pensador alemão. É comum indicar as origens do estruturalismo nalguma coisa entre Saussure e Marx.
Mesmo sem uma grande leitura deste autor tão conhecido, podemos perceber realmente que ele traz algumas questões estruturais. Alguns elementos da exploração capitalista descrita por Marx ainda hoje servem tão bem que muitas vezes esquecemos de historicizar sua teoria e perceber que nosso tempo já é outro – e sim, ainda somos explorados, porém não da mesma forma que no século XIX. O marxismo, talvez mais do que o próprio Karl, nos trazem algumas questões chave que parecem determinar nossa sociedade. É por este caminho que Lévi-Strauss se embrenhava quando começou a aventura estruturalista2. O que este francês formado em filosofia, porém que se descobre antropólogo nas matas brasileiras, propõem é buscar princípios norteadores do homem. É uma questão muito científica e direta: “a estrutura é coisa diversa do que eu denominei por organização, mas também que ela nos dá a chave de um funcionamento”3. Desde Lévi-Strauss há esta que parece ser a única definição do que é o estruturalismo, uma busca pelos elementos chave da sociedade (por isso a dívida com Marx), e estes elementos são diretos ao Homem.
Não se viam enquanto um movimento determinado, muitos autores inclusos neste rol de autores se autoexcluem e não existe um método ou teoria definido e perceptível em comum entre todos os chamados estruturalistas. O que é fácil perceber é que eles, seja um linguista ou um antropólogo, buscam compreender e identificar os pontos chave da sociedade. No caso de Lévi-Strauss teremos o famoso caso do incesto, tabu visível em toas a sociedades. Enquanto antropólogo, ou seja, de estudar o Homem enquanto espécie, Lévi-Strauss identifica um elemento comum ao homem, algo que compõem sua estrutura em todas as sociedades – logo a todos os homens.
Não é fácil falar sobre este movimento, tão claramente visto como importante, mas deixado a distância. Ninguém mais aceita ser chamado de estruturalista, entretanto lemos vários autores que já receberam esta nomenclatura em algum momento. O que ocorre e fico com a herança mais forte deste mote teórico é a crença em elementos estruturais para com o homem, seja as instituições (escolas, prisões, sanatórios, etc), sejam os costumes (burgueses, machistas...), a própria arquitetura (panóptico como o exemplo mais claro) ou este turbilhão indefinido que se chama cultura, há pontos chave nestes elementos tão respectivos ao homem. Entretanto o grande crime dos estruturalistas foi apostar muitas fichas no peso desta estrutura, quando elementos que vão desde o indivíduo até as rupturas existem e acabam levando a estrutura para segundo plano. Não acredito que precisamos retornar ao termo, mas sim saber que seus reflexos ainda estão ali. Pois segundo tudo indica usamos mais do que a palavra, também somos herdeiros desta linha de pensamento, mesmo não o usando mais.
1DOSSE, François. História do estruturalismo, v. 1: o campo do signo, 1945-1966. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: editora da universidade Estadual de Campinas, 1993.
2O próprio Claude Lévi-Strauss fora um assíduo leitor de Karl Marx durante seus anos de juventude. O mesmo se põem para praticamente todos os membros fundadores da escola estruturalista, para mais detalhes ver: DOSSE, François. História do estruturalismo, v. 1: o campo do signo, 1945-1966. São Paulo: Ensaio; Campinas, SP: editora da universidade Estadual de Campinas, 1993.
3POUILLON, Jean. Uma tentativa de definição. In: COELHO, Eduardo Prado (org.). Estruturalismo: antologia de textos teóricos. Lisboa: Protugália editora, 1968, p. 13.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Estética da Ginga - Paola Berenstein Jacques

      
Várias vezes Lucien Febvre usará a expressão “combates pela história”, mesmo que esta frase seja pouco clara ela indica que o francês sabia muito bem dos jogos de poder em que a História está inserida e faz parte – independente de sua vontade. De alguma forma acredito que um dos nossos desafios contemporâneos dentro da sociedade brasileira seriam “combates pela cidade”. Moramos em cidades péssimas, e neste quesito nada melhor do que a copa para ilustrar isto. Não podemos fugir de nossa história, negar nosso passado é tão difícil quanto fugir do saudosismo. Sobre este problema urbano que nossa realidade concreta nos impõe, a teoria rizomática pode ajudar muito.
De maneira geral e resumida, as cidades brasileiras não passaram pelo rígido esquema de quadras de nossos vizinhos colonizados por espanhóis. Quando observamos esta grade nas cidades coloniais, percebemos que a rigidez é outra, Paraty não é tão geométrica como Colonia del Sacramento, mesmo que nossa percepção indique que ambas seguem um mesmo “plano diretor”. O que ocorre é que nossa geografia e constituição também é outra.
O grande roteiro das reformas urbanas no Brasil (muitas vezes ainda) seguem o estilo do “bota abaixo”, ou da demolição do cabeça de porco, episódios já bem documentos que ocorreram no Rio de Janeiro – então capital do país[i]. O plano é simples, a constituição presente da cidade não atente os desejos de modernidade da época, então destroem todo e refazem a cidade, seguindo um plano de forte inspiração (e cópia) europeia. Neste sentido os grandes alvos são os cortiços, e logo em seguida as favelas.
Não há cidade no Brasil que não possua uma favela ou algo que se assemelhe a isto. No geral chamamos de favela lugares onde as habitações apresentam inúmeros problemas habitacionais como: mobilidade, saneamento, desmoronamento... Sabemos e não negamos que as favelas apresentam problemas de urbanidade. Porém o interessante é observar que durante anos o modelo seguido é um puro fascismo urbanistico, não abrindo mão de tratores para demolir tudo que está ali e reconstruir novamente algo o mais próximo possível de ideais iluministas/cartesianos. Nisto ainda somos reféns das quadras.
O rizoma ajuda a combater este fascismo urbanista, nos faz compreender de que não precisamos destruir uma favela para torná-la aprazível. Nos ajuda a entender que a favela é uma constituição diferente de urbanidade e para lidar com ela não precisamos destruí-la, mas sim compreende-la e aceita-la. E querendo ou não as cidades brasileiras se constituem de forma muito mais semelhante (e rizomática) as favelas do que ao rígido e geométrico plano de quadras. Esta é nossa realidade, não por acaso foi aqui que o conceito de bricolage ganhou forma, parece que esquecemos disto.



[i]  Para mais detalhes recomendo ver: CHALHOUB, Sidney. Cidade Febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: companhia das Letras, 1996.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

TAZ, Zona Autônoma Temporária - Hakim Bey

          As coisas acabam. O grande trauma de muitas questões do nosso cotidiano é o fato de não entendermos que nada é eterno. Dai nossa decepção quando algo, onde tanto apostamos acabou não vingando. Da mesma maneira comumente esperamos que tudo melhore, quando talvez fosse mais saudável compreender que as coisas mudam, ganham outra forma, e tiveram a intensidade possível em seu momento.

          Neste sentido olhamos para os movimentos atuais com muita dúvida. Sua indefinição nos confunde, mas ao mesmo tempo diz muito mais do que queremos ouvir. Triste é o coro quase geral por um pedido de regresso ao estado de bem-estar social, que parece ser o grande mote dos protestos nos países em crise dentro da União Europeia. Concordo que é menos assustador que o burburinho de alguns europeus pelo regresso de regimes totalitários (em especial: Espanha, Portugal e Grécia, países com largo histórico de ditaduras). De qualquer forma em ambos podemos observar uma saudade do passado, algo sempre muito perigoso, ou desejo por uma estagnação (no caso chegar em algum ponto e ali ficar eternamente) que por sinal é pautada em tempos passados – seja o bem estar social europeu ou as ditaduras. Esta volta ao passado revela, dentre tantas coisas, este desejo por estagnação, pelo eterno, é uma lamentação pelo fato de algo terminar.

          Esta dificuldade por compreender que as coisas acabam se mostra mais perene no caso da chamada primavera árabe. Ao derrubarem os regimes ditatoriais (que durante anos não foram chamados assim pela mídia internacional) fora dito que uma avalanche por democracia varia estes povos. Pretensão tamanha a “desses ocidentais” que além de durante anos terem sustentado e apoiado estes regimes autoritários, agora dizem, antes mesmo de perguntar, que o desejo desses povos é por um regime igual ao nosso – e fica a pergunta, o que é afinal democracia? Não queremos aceitar que deste emaranhado chamado terceiro mundo possa vir a evidência mais autêntica dos últimos tempos, desprezo e descrença por fundamentos largamente construídos nos últimos 300 ou sei lá quantos anos. E há uma dificuldade em compreender isto, principalmente por não aceitarmos a possibilidade do fim.

          Talvez deixar de desejar tanto o eterno seja a melhor atitude, mas como apagar marcas inscritas de forma tão profunda em nossa pele? Talvez este seja o grande desafio atual. Também sabemos que não há como apagar estas marcas sem deixar outras, e concordo que pouco sabemos (ou aceitamos) que marcas poderiam ser estas. Nosso corpo é marcado, traumatizado, e muitas vezes acabamos criando alguma afeição pela cicatriz.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Por amor às cidades - Jacques LeGoff

     Alguns cálculos trazem de que no mundo antigo era necessário aproximadamente 10 pessoas trabalhando no campo para que uma pudesse viver na cidade. Morar na cidade era um privilégio, poucos podiam, não por acaso as cidades medievais eram pequenas. Além disso haviam os perigos recorrentes das pestes, guerras e turbas revoltosas e famintas. Os muros que serviam para proteger também matavam, seja de fome caso algum cerco durasse muito tempo, ou seja pela má circulação de ar, que somada aos esgotos a céu aberto, colaboravam para a proliferação de doenças.
     Entretanto temos uma tendência positivista em olhar para o passado sempre com certo desprezo. Como colocou Nietzsche certa vez, até podemos desejar voltar ao momento em que se era mais jovem, mas dificilmente desejaríamos voltar a mentalidade que tínhamos outrora. Pensando nesse passado acabamos ficando sedentos pelo futuro. De forma geral a herança positivista está inscrita em nossa pele, especialmente quando possuímos algum nível de escolaridade. O que se passa por fim é que, durante longo tempo olhava para a Idade média com desprezo, seja por ver este período como um momento de trevas, seja pelo desprezo a histórias de cavaleiros, cortes, príncipes, princesas e nobreza. O problema é que até então eu sempre tão admirador do romantismo, ignorava o povão da Idade média. Desconhecia os resquícios e conclusões referentes ao seu pensamento e comportamento.
     Jacques LeGoff parte da ideia de que a cidade medieval teria mais semelhanças com a cidade moderna, do que a cidade antiga. Partindo dai, ele se propõem a analisar e explicar uma série de questões sobre as cidades medievais e as modernas, tudo claro, de forma geral, o que é perfeito para curiosos que não desejam se especializar, ou simplesmente alguém que busca algum ponto de partida.
     Acredito, e posso cair num saudosismo barato, que a Idade Média fora um dos momentos mais vivos do ocidente (leia-se Europa). As pessoas gozavam de uma liberdade maior que a nossa, sua vida estava menos regularizada pelo Estado. Não por acaso o fortalecimento dos Estados vai marcar o fim da Idade Média. O que acaba desmotivando um pouco é saber que tais regularizações acabavam ocorrendo de outra maneira: se o ritmo de trabalho não era determinado pelo relógio, era ele determinado por obrigações com o senhor feudal, ou se não havia toda uma regularização da vida por meio do Estado, a Igreja marcava sua presença. De qualquer forma, períodos diferentes exigem instrumentos distintos para interpretação.
     Entretanto a relação dos medievais com a cidade era algo mais vivo do que hoje. A cidade era muitas vezes um lugar de fuga, não era necessariamente reservada aos mais ricos, mas tão pouco suportava todos. Algo estranho para nós tão desejosos por um direito a cidade. O que se passa é que a cidade medieval possuía populações numericamente inferiores as atuais, entretanto sua população se revelava muito mais ativa e criativa do que as populações atuais. O que me interessa nas cidades é viver elas, mas não viver como me parece sugerir o repórter local¹, mas um viver de conhecer as frestas, cafés, bares, praças, de andar a pé, bicicleta, ver as pessoas, flanar. E creio que olhar para estas cidades medievais, possam ajudar a nós “pós-pós-modernos” a nos relacionarmos e transformarmos nossas cidades. Até porque já demonstramos um cansaço por esta cidade das rodovias, ausente de calçadas e cinza (fuligem), entretanto não queremos abrir mão das possibilidades citadinas.
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¹ No caso o apresentador Alexandre José tem como um de seus slogans: “a voz de quem vive a cidade”. Vale ressaltar que o jornal por ele apresentado não exita em cair no sensacionalismo geral da televisão, noticiando em grande medida acidentes, assaltos. Um de seus jargões é “bota o vagabundo na tela”.