segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Idea: a evolução do conceito de belo - Erwin Panofsky


 Estética é uma palavra chique, “tá na boca do povo” quando se quer discutir o belo e a beleza. Até mesmo os salões de beleza vêm mudando seu nome para salões ou clínicas de estética. Uma discussão mais séria reconhece que a concepção de beleza não é única, que ela pode variar entre duas pessoas, mas não para por ai. Não devemos cair nessa armadilha semântica da palavra subjetividade e acreditarmos que meu eu é único e surge como que de um nada original único, misterioso e exato feito a existência de Deus, de alguma forma Foucault já nos alertou sobre isso. Mesmo assim, por incrível que pareça, não diminui-se em nada a concepção estética de cada um, ela continuará existindo, será ainda assim particular a cada um. Porém existem pontos em comum.
Antes de acharmos ou vermos algo belo nós o imaginamos, definimos seus contornos em nossa mente, formamos sobre a beleza uma Ideia. O artista pensa sobre a criação antes de criá-la. Desta Ideia surge nosso senso estético, que servirá tanto para julgar quanto para criar – ou destruir – algo. Ou seja, antes de vermos ou julgarmos o belo e o bom, nós o imaginamos, pensamos. O primeiro lugar de pensamento estético é abstrato, depois partimos para obras e situações reais. Um exemplo pode ser o uso de drogas, tal qual foi feito por Baudeleire, que é um ótimo exemplo, pois o uso de substâncias feito por Baudeleire tinha objetivos e intenções completamente diferentes do de várias outras pessoas que também consomem ou consumiram as mesmas substâncias. Logo, não é o uso de uma substância que definirá seu senso estético, mas seu senso estético que interfere na sua experiência. Uma pessoa que viu um quadro surrealista não é necessariamente admirador da estética surrealista. É necessário todo um preparo e abstração, uma composição de ideias para a formação de um senso e opinião estéticas.
Neste sentido as pessoas tem um processo de desenvolvimento individual particular, o que não leva dois irmãos, por exemplo, a terem os mesmos gostos e opiniões, seja sobre política ou estética. O desenvolvimento estético inicia antes da experiência, seja da aventura ou da contemplação de uma arte. É a partir da Ideia que se estabelece no campo abstrato, que ela refletirá num campo mais tátil e material: a exemplo da escolha entre um filme russo ou brasileiro, assim como torcer o nariz para uma música e dançar outra. Estes processos, por mais que sejam criações mentais, não são falsos, eles existem, tem sua materialidade, uma careta de desagrado tem seu peso real. Não se nega em momento algum da particularidade de cada ser, só é impossível investigá-las individualmente.
O ponto tátil que podemos lidar nisto tudo acaba sendo o tempo e espaço compartilhado por todos. A família de um sujeito é diferente da de outro, o que já implica diretamente numa formação diferente para cada um, porém ambos os indivíduos estão cercados pela história, afinal é este um chão que temos para nos apoiar. Como partimos dela e nos movimentamos com o tempo, ela deixará marcas em nós, muitas vezes contra e muitas vezes em consentimento com nossa vontade, tal qual cicatrizes e tatuagens. Partindo disto, a concepção de beleza pessoal de cada um, passa pela formação de uma Ideia estética. A formação de concepção estética, desta Ideia, deste senso, tem uma relação direta com nosso tempo. Não fosse por isso ela seria sempre a mesma, e não é, já que o ser humano não é um ser atemporal. A exemplos dos salões de beleza e as clínicas de estética, a palavra clínica traz todo um peso médico para a questão do belo atual, de saúde, de normatização do corpo, isto só pode ser compreensível num período marcado pela biopolítica e controles normativos sobre o corpo e uma sociedade ainda marcada pelo machismo. O senso estético dessas clínicas só pode ser possível neste quadro histórico. A mesmo vale para a experiência dos shoppings centers, possível apenas no mundo da via-expressa descrito por Marshall em Tudo que é sólido desmancha no ar.
A modernidade está em constante transformação, e é também uma experiência estética, pois antes mesmo de ser posta em prática ela foi pensada. As teorias tem por fim a prática.


Um comentário:

  1. tu és um belo, procópio!

    (comento mais intrisicamente em breve)

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