quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O Processo Civilizador V. 1 - Norbert Elias

Faz algum tempo que certo programa dominical havia chamado uma especialista em etiqueta para falar sobre “Roupa no Trabalho”. De certa forma ali foram indicadas condutas a respeito da vestimenta no ambiente de laboro. Conversando com meus pais a respeito, lhes disse que esta questão de policiar a roupa de uma pessoa era algo que procura mais do que “vestir bem”. Então eles me responderam que é necessário usarmos uma roupa adequada. Em seguida citei o ambiente jurídico onde é necessário trajar terno, não importando o clima (verão, inverno). Me disseram aquilo que ouvi professores universitários falarem: que esta norma é um sinal de respeito. Minha argumentação fora simples, sinal de respeito não seria obrigar alguém a trajar tal roupa, mas sim deixá-la vestir a roupa que bem lhe conviesse. Fazer piadas pela roupa de alguém por não trajar algo respeitoso me é incomodo. Ainda falando em roupa, certa vez um amigo meu ouvira a célebre frase de seu avô, de que com a roupa que estava vestido (no caso camiseta de banda e jeans velho) parecia um marginal. Na hora ele retrucou uma resposta semelhante a criança que berrou que o rei estava nu, “olha vô, quem mais rouba usa terno e gravata”.
Bem, podemos ver nisto tudo uma série de códigos de boa conduta ou de conduta civilizada. Apesar de minha leitura que além de fraca, tem um forte peso foucaultiano, Elias vai falar justamente de uma questão semelhante. Depois de ler este livro quando dizem “civilização”, os contornos já são outros. De forma geral vamos ter manuais de etiqueta que vão buscando transformar os hábitos das pessoas. A princípio deveria ser para diferenciar a nobreza “do resto” - que me perdoem os fundamentalistas da classe média, mas também estamos aí1. É interessante ir vendo como isto vai se espalhando, como cada lugar vai desenvolver seus códigos de etiqueta, e como uma pessoa da corte de Bolonha pode gerar um pequeno estranhamento na corte de Budapeste (e vice versa), mesmo sendo educado na mais fina etiqueta de sua região.
Quase podemos ver isto como os códigos de que falava meu primo em Buenos Aires, quando íamos a algum café observar as pessoas e ele me falava de gestos e atitudes que demonstravam respeito (a exemplo de uma pizzaria onde os “esnobes” sentavam mais ao fundo). Porém no caso porteño não fora escrito manual algum sobre a conduta a ser tomada na cidade. Mas é curioso como não seguir tais “regras” nos geram incômodos, ou até mesmo asco. Nisto me recordo de alguns jornais que ao reclamarem dos sujeitos que faziam barulho pela cidade tarde da noite os nomeavam de “botocudos” e que eles se constituíam como indivíduos a margem¹. Casos a parte, porém ambas norteadas por regras de conduta. A diferença é que no caso citado por Norbert Elias haviam manuais, e no citado por mim não.
Observem bem que o que os condicionou a tal status fora seu comportamento. Isto justificou utilizar a metáfora horrível da cidade sobre a mata, do europeu sobre o índio, da civilização sobre a barbárie. E a civilização aqui talvez seja diferente da de Vico: onde houver mito de criação, celebração do matrimônio e sepultamento dos mortos, ali temos uma civilização. E no cotidiano, na fala das pessoas, civilização se constitui por tecnologia, economia, hábitos e condutas. A educação de que tanto gostamos de falar não passa por um domínio de grandes teoremas, Platão ou Leibniz. Ela parece estar muito mais na forma de se portar, na roupa que se usa (porque tanto terno?), no uso de talheres, na língua que se fala. Damos importância a tudo isto, e talvez até mesmo Lucy se importasse com a conduta de seus semelhantes, realente não sei, mas o para onde olhamos assim que encontramos alguém não ocorre por acaso, muito menos gerado por um processo “natural”.
Creio que a observação feita pelo autor seja uma boa forma de encerrar este texto tão curto e insuficiente:
“Freqüentemente se diz ‘o quanto nós progredimos além desse padrão!’, embora, em geral, não fique bem claro quem é o ‘nós’ com quem a pessoa se identifica nessas ocasiões, como se merecesse parte do crédito” (ELIAS, p.81).



¹ “Mais uma vez o nosso apelo tendo em vista que Blumenau já alcançou a sua maturidade no que alude aos fóros de civilização, e o que se verifica, no caso em pauta é ato de individuos botocudos que estão a margem da lei.” - retirado do jornal Combate, nr 11, 11 de fevereiro de 1962 

domingo, 18 de dezembro de 2011

O Imperialismo Sedutor - Antonio Pedro Tota

    É incrível como o Brasil, de uma forma geral, é americanizado. Mesmo aqui no sul do país onde tanto se fala da imigração europeia, da influência deste processo de imigração e tudo o mais, os EUA são a grande referência. Meu exemplo favorito é observar os filmes em cartaz no cinema. Raramente há algum “forasteiro” entre todos aqueles holliudianos. Nacionais até temos, claro há leis obrigando a isto. Sem falar que há uma tal “boa fase” do cinema nacional. Porém os grandes filmes, os que recebem mais do que uma sala, que têm os horários mais flexíveis vêm da tão comentada Hollywood.
A música que ouvimos na rádio não foge muito do que observamos no cinema, novamente os nacionais ali sob a égide de uma lei. Até mesmo fuçando blogs na internet atrás de músicas, filmes e afins, mesmo sendo algo completamente fora dos circuitos comerciais, boa parte é produzido por estadunidenses e vez por outra algum londrino aparece. Não para por aí. Basta verificar o número de escolas de idioma, até oferecem outras opções, mas salvo as em estreita relação com as embaixadas (Aliança francesa, por exemplo), o carro chefe sempre é o inglês. Não falamos o inglês da Jamaica, Austrália, Nigéria ou África do Sul, mesmo sabendo que estes lugares falam inglês. Falamos o inglês daqueles filmes, daquelas músicas, daqueles seriados, onde a grande referência são os EUA.
    E o ponto mais interessante deste livro é interpretar o processo de americanização não como um hambúrguer enfiado goela abaixo dos pobres brasileiros. Ora, gostamos de assistir as ridículas séries, mesmo sabendo que são bobas e enlatadas, aquela música comercial (ou não) nos agrada, estranhamos o rock russo ou o “próximo” espanhol. Imagine que Fantasia e Alô amigos são produzidos antes de 1950, e rapaz, que qualidade! Num primeiro momento havia certa resistência, pois os estadunidenses eram vistos como rudes, incultos, rednecks. Com o tempo foram mudando sua imagem, apresentando-se como terra de grandes mentes, da industrialização e do progresso. O grande colaborador para isto fora a saída da segunda guerra mundial como a maior economia do mundo.
    Antônio Tota traz uma abordagem nova sobre um velho assunto. Talvez este texto e a leitura levem a uma grande confusão a respeito do processo de americanização no Brasil, e o leitor pode estar se perguntando: “Afinal gajo, tu és contra ou a favor da americanização, ela te parece boa ou ruim?”. E penso fazer um coro a Tota ao colocar que o mais importante no momento, é entender de que podemos até gostar desta forte influência estadunidense (Filmes, música, séries...), ela nos cai bem, é bacana falar inglês e este hambúrguer nem foi tão goela abaixo assim, mas este processo não se deu de forma “natural”.
    A cultura moçambicana é rica como a russa ou polonesa, mas gostamos mais do que vêm dos Estados Unidos. O que quase nunca se traz para a discussão é a mediação dos governos brasileiro e americano nesta aproximação cultural, que servia de fronte a interesses econômicos, o Brasil com seu café e os EUA com seu excedente. Da mesma forma que os estúdios Disney filmaram o Alô amigos, Carmem Miranda encontrou espaço no mercado estadunidense. Mesmo que atualmente a influência dos EUA seja muito mais perceptível no Brasil do que a brasileira nos EUA. Podem até enfiar o hambúrguer goela abaixo, mas antes nos ofereceram ele rodeado de bela propaganda.
    É bacana ler este livro compreender melhor a forma com que se dá esta relação cultural, como pessoas podem tomar este país como modelo e não aquele outro. Não é falar se este processo é positivo ou negativo, mas compreender como ele funciona, para como as regras de um jogo, saber como utilizá-las e o que fazer com elas.  

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Valsa com Bashir - Ari Folman (dir.)


Já postei aqui sobre a questão Palestina por meio do trabalho de Joe Sacco. Li também seu trabalho mais recente, Notas de Gaza, que se mostrou tão bom quanto o Palestina: uma nação ocupada. Neste sentido, Valsa para Bashir se mostra como um complemento riquíssimo para estas duas obras que eu já conhecia. O filme é uma bela animação com uma boa trilha sonora, que vai tratar do massacre que ocorrera durante a guerra civil libanesa no campo de refugiados palestinos Sabra e Bashila na região de Beirute (capital do Líbano). O filme tem um toque de sensibilidade único, creio que as paisagens e os diálogos em hebraico fortalecem isto.
O documentário-animação se sustenta nas memórias recentes de um tal diretor de documentários1 que participou da invasão israelense durante a guerra civil libanesa enquanto cumpria o serviço militar obrigatório(que em Israel dura três anos). A idade e o tempo bem nos ensinam que nossas memórias vão ficando nubladas, e buscamos esquecer principalmente aqueles fatores que nos desagradam. Por isso é difícil para o personagem principal restituir as peças do infeliz episódio em Beirute.
Algumas coisas não ficam claras no filme e vale a pena trazer. O elemento que norteia a guerra civil é a eleição de Bashir para presidente do Líbano. Porém o fato é que, na legislação da época ao menos, apenas pessoas da religião católica meronita poderiam ser eleitos presidentes (confesso que desconheço a situação atual libanesa). De quebra a OLP (grupo do Yasser Arafat) estava instalado fazia algum tempo em Beirute, assim como vários campos de refugiados palestinos, fatores mal vistos pelas Falanges Libanesas (facção armada de maioria meronita), que junto com a OLP exercia um para-Estado dentro do Estado libanês.
Geralmente quando se fala de Israel e seus conflitos esquecemos que muitos dos soldados não servem por que querem, até porque o serviço é obrigatório, e mesmo dentro de um tanque sente-se medo já que se pode levar um tiro a qualquer momento. É um filme que consegue ser crítico a situação de guerra na região sem fazer uma risca dividindo entre “bons e ruins”. O próprio esquecimento revela a aversão a tais memórias...
Em boa medida a obra fugiu de lugares comuns, exceto talvez no quesito dos relatos de guerra, que salvo filmes fictícios, são sempre rodeados pelo tédio e desespero. Mas imagino que uma guerra deve ser assim mesmo, aliás, também não desejo ter contato algum com tal experiência.








1Ao que tudo indica é o próprio Ari Folman.

sábado, 26 de novembro de 2011

Elogio da Madrasta - Mario Vargas Llosa


Sempre procuro não me render ao que está ocorrendo no momento, procuro falar daquilo que me interessa, até porque não há nenhuma pretensão neste blog além de falar sobre livros que li ou filmes que assisti e gostei. E se der sorte, quem sabe fazer alguma troca, mas não uma recomendação de “boa leitura” (mesmo que por vezes me traia neste propósito). Dai que os únicos “nobels de literatura” no blog são anteriores aos anos 1970 (Kawabata e Camus). Mas por uma série de razões, e a principal por um amigo meu ter me emprestado o livro, li esta obra de Vargas Llosa enquanto ele está quente (ou não fora substituído por outro escritor de língua latina).
Admito que não esperava tanto deste peruano. Havia assistido uma ou duas entrevistas suas onde ficava claro sua erudição (algo de se esperar). Mas certamente que após ler alguma obra sua, as palavras proferidas numa entrevista se fazem mais claras. Por sua erudição não esperava um escrito tão cru e visceral. Posso estar enganado e o “Elogio” pode se constituir uma exceção, até porque não li nenhuma outra coisa sua (artigo, conto, frase) que não este livro erótico.
Me surpreendeu a forma com que casou elementos de uma sub literatura, como o erotismo e os singelos elementos de uma história de amor, com uma literatura “clássicosa”. Sem deixar de perder o ritmo ou intensidade. Mesmo se tratando de uma família abastada, que tem empregados para cuidar da casa, a história não é um romance monótono que narra o cotidiano e picuinhas de uma burguesia com vontades de aristocracia.
Trata da sexualidade de forma forte, que parece procurar o corpo do leitor em suas descrições e narrativas dos corpos dos personagens. Seja o já envelhecido Don Rigoberto, a sensual Lucrecia ou o mancebo Foncho. Os corpos estão ali. Rigoberto é o corpo em decadência, envelhecido, mas ainda viril e vivo. Lucrecia é uma mulher velha, daquelas que a idade traz o ápice da beleza. Enquanto Alfonso, o menino em início de puberdade, tem seu corpo ainda límpido e provocativo. Desde seus cabelos e pele clara, até seu olhar e risada.
Imagino não ser o único que voltava para ver as pinturas que estão no começo de alguns capítulos, assim como olhar a capa do livro ao fim de cada descrição da madrasta. Os capítulos entremeados por histórias que estão dentro dos quadros, corrobora com o entendimento da história. Além de me lembrar quando era garoto e olhava para quadros e imaginava histórias, talvez não tão criativas quanto as de Llosa, mas assim como era para Foncho o quadro da sala, tais pinturas se faziam particulares e magníficas.
O curioso é que a história se passa toda dentro da casa. O mundo exterior a casa, com exceção do céu, pode ser citado, mas não se faz existente na história. Vargas Llosa escolhera muito bem as palavras e cria uma ambiência particular para a história. Definitivamente o livro me surpreendeu.


domingo, 20 de novembro de 2011

Misto Quente - Charles Bukowski

Como já publiquei sobre este livro (não vale a pena ler a resenha, apenas ver a capa do livro) coloco esta foto do Bukowski, nos tempos "áureos" em que ele não era um escritor reconhecido e precisava de outros empregos para se manter.

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Na abertura da obra Bukowski dedica o romance para todos os pais. A provocação combina bem com a obra. O personagem principal é alguém com muita potencialidade e capacidade, mas muitas coisas lhe atrapalham. E a situação gera no leitor uma identificação com o personagem, que faz do livro algo tão intimista.
Situado entre a primeira e a segunda guerra, Misto-quente é uma obra bem crítica destes tempos conturbados. Além de muito divertido, há algumas coisas entre suas linhas que antes não havia percebido ou dado atenção. A forma como Buk aborda a guerra e o american way of life, propagado por todos os lados, inclusive a escola, são incríveis. Ainda mais se for levado em consideração a geração da qual provinha Charles Bukowski. E a imagem do modo de vida americano ganha corpo em seu pai, sujeito mesquinho, bronco e estúpido, e se ainda não basta, acreditava que a simples vontade humana dá conta dos desafios da vida.
A primeira vez que eu e minha irmã lemos o livro nos identificamos no ato com o “fantasma alemão”. Nascemos aqui nesta cidadezinha cheia de descendentes de povos de língua alemã, e muitos certamente receberam uma educação semelhante a descrita no livro. A parte de não deixar o filho brincar na rua para não “parecer pobre”, ou uma educação pautada no castigo e na inflexão, uma rigidez cada vez maior para “corrigir-se” a criança. Além do fator que é algo esquisito crescer ouvindo pessoas falando sobre a Alemanha como se fosse o céu, e coisas do tipo. Talvez pouca gente saiba, mas o índice de suicídios é altíssimo na região do vale do Itajaí. Brincamos falando o quão “positiva” é esta educação prussiana que gera um bando de doidos, alcoólatras, pessoas frias que acreditam na Alemanha como lugar ideal (até hoje).
A década de 1930 foi toda marcada pelo forte desemprego nos EUA. Foi uma crise tão forte que levou a uma total descrença do capitalismo, dai o fortalecimento do ideário comunista e principalmente nazifascista, pois além de anticapitalista era também anticomunista. E fica nítida a hipocrisia de seus colegas de faculdade, especialmente o boa-pinta queridinho do campus, que fazia todo seu discurso contra os nazis, mas não se negaria a colaborar caso “eles ganhassem”. Faz muito sentido se lembrarmos que os mesmos Estados Unidos que se propunham como soldados da liberdade contra o nazismo, não evitavam em continuar com sua color line, distinguindo espaços para negros em brancos (isso mesmo, como na África do Sul e seu apartheid).
Como forte “herdeiro” de John Fante, Bukowski não poderia deixar de trazer recortes da vida que pulsa nas ruas. Vida esta que é manchada de sangue, suor e com cheiro de bebida alcoólica. Toda aquela gente com sua sobre vida, procurando formas de ganhar dinheiro e de gastar o mais devagar possível o pouco que tinham. Gente que usa de seu empenho e vontade, sem contando conseguir muito mais do que vencer aquele dia e preparar-se para o próximo que já se anuncia.
Ficaria curioso em saber qual a reação de todo um grupo de professores ao lerem esta obra. Este livro tem um pouco do efeito dos incompreendidos de Truffaut. Até porque escuto muita gente (professores ou não) dizendo como tem que ser feito, que a rigidez de antigamente deveria voltar, que hoje em dia está “virado”. Certamente Misto-quente não se resume à memórias de Charles Bukowski, mas é óbvio que seus escritos tem reflexos de suas experiências. E dai que percebemos que a escola funcionava do mesmo jeito que hoje em dia, só que agora temos computadores, celulares, tênis de marca e ar-condicionado. O teste de paciência é ainda o mesmo para os alunos, e o desagrado é o mesmo para o professores.
Com sua escrita fácil, que deixa nossos olhos correrem pelas páginas, Misto-quente é também uma das obras mais tocantes que já li que tratam da adolescência. Apesar de não ter tido acne vulgaris, também não fui nenhum sucesso, seja com garotas, esportes ou notas. Chinaski, assim como o Arturo Bandini de A caminho de Los Angeles, é um sujeito de espírito forte, é Deus, como é difícil ter espírito forte, como é custoso mantar-se um espírito livre!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Blues - Robert Crumb


Já conhecia Crumb de uma obra sua mais recente: “Genesis”, uma adaptação do primeiro livro da bíblia para os quadrinhos. Gostei muito, pois o autor traz sempre um texto explicando o processo de pesquisa para o trabalho e algo para complementar. No caso de “Blues” ele vai demonstrar um pouco mais de sua erudição.

Evitando os bluesman mais famosos, Crumb busca ir o mais remotamente possível, mas não por uma busca as raízes da questão, mas sim por outros motivos. Ele vai colocar que só fora possível conhecer aquela música pré explosão da venda de discos por uma sorte, já que este tipo de música, como o começo do Blues por exemplo, era considerada uma música de menor valor artístico, e sua gravação ocorria apenas para que os caipiras tivessem o que ouvir, e consequentemente comprar, os novos tocadores de discos que surgiam no mercado, a preços mais acessíveis. O que vai reforçar as críticas de Crumb ao mercado fonográfico em geral, assim como as lamentações por um tempo já passado, e ao mesmo tempo vai explicar seu fascínio pelo tempo já passado que é retratado nesses seus quadrinhos (caso queiram saber melhor do que estou falando, digitem Robert Crumb no buscador de imagens e observem bem a roupa deste sujeito).

Primeiro ele vou tratar de relação de amores que muitos de nós (fãs de música) acabamos tendo com o passado. Geralmente se fala em grandes bandas: Beatles, Rolling Stones, Ella Fitzgerald, Nat King Cole, Mozart ou Bach. Mas para Crumb estes sujeitos podem até ser músicos melhores que desprezíveis, mas Ella, Paul e Bach não passam de sujeitos tão vendáveis e comercias quanto uma Britney Spears ou Bro'z. E agora reforço eu o argumento de Crumb pedindo para que vocês vão um dia e entrem numa loja de discos e observem quantos produtos existem dos Beatles por exemplo, sei que até tênis do Joy Division existe. Enquanto a Mozart? Bem, Crumb vai nos lembrar de que estes músicos clássicos (desculpas mas não sei a diferença entre românticos ou barrocos, por exemplo) não passavam de músicos da corte, que acabavam fazendo nada mais do que uma trilha sonora para o que ocorria na corte, já que poucos realmente se importavam com a música mesmo1.

Remetendo aos quadros de Bruegel o quadrinista vai dizer que dali podemos pegar um pouco de como era a música do povão, deduzimos um pouco pelos movimentos que fazem ao dançar como era a música, mas não há partitura ou gravação em áudio. O fole está na rua, ao céu aberto para todo mundo poder ouvir, enquanto a música erudita, de corte, racionalizada (partitura), se encontrava em espaços restitos2. Neste sentido o fascínio deste estadounidense pelas primeiras décadas do século XX se dá por causa da sorte (ou acaso?) de termos alguma coisa gravada e assim termos resquícios suficientes. Além de que para ele é com esta música que consegue se sentir bem.

A própria história de vida dos bluesman vai demonstrar este amor pela música, não por acaso ser tão comum a história de vender a alma para o diabo em troca do dom de tocar magnificamente um violão, quer dizer, você tinha que encarnar mesmo no violão, deveria dedicar sua vida a isto. E se dedicando com todas as forças a música, acabava tendo que “vender sua alma”.

Neste ponto esta música popular, do povão mesmo, com sangue, suor e álcool pode se mostrar maravilhosa devido a sua energia e intensidade, basta ouvir o maracatu na rua ou imaginar a festa de santo reis, cantada por Tim Maia.

E como diria Chico Science, “basta soar bem aos ouvidos”.

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1Creio que o filme Mozart traz um pouco desta relação, de como no geral a música de corte era tratada enquanto “perfumaria” ou “música de fundo”. Peter Gay vai tratar em “A experiência Burguesa da rainha Vitória a Freud” (não lembro em qual volume), melhor a forma como ao longo do tempo fora investido num maior controle sobre a apreciação da arte, no sentido de produção crítica indicando o bom e o ruim, e os controles frente a ela, como o de ficar completamente imóvel quando se assistia a uma ópera ou concerto, apenas apreciando a arte.

2Como traz Max Weber na introdução de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, apenas no ocidente que se colocou a música em partituras como as nossas, que indicam não só as notas, como também o tempo, a própria divisão em duas claves (sol e fá) e outros fatores particulares.

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Abaixo um dos quadros de Bruegel, famoso pintor por seus quadros magníficos com todo este fervilhar e vida.

Procurando coisas encontrei uma postagem sobre o álbum do qual se origina a capa desta obra de R. Crumb (aqui), além disso parece ser um ótimo blog para se visitar.



quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Para a questão da habitação - Friedrich Engels

Este livro é uma coletânea das respostas escritas por Engels num jornal alemão para um certo sujeito. Pelo que eu sei estes debates de cartas publicadas em jornais eram comuns, só para ilustrar, foi uma pergunta lançada numa revista que Kant publicou seu texto Was ist Aufklärung? Apesar dos dois textos terem sido publicados de forma diferente me parece que como havia declarado Foucault uma vez, nesta época os jornais perguntavam sem imaginar uma resposta ou sem direcionar para uma, ele põem que não sabe precisar qual é o melhor método, mas considera este primeiro mais interessante.

Uma das coisas mais interessantes de se estudar o século XIX em si é observar a série de problemas que a Europa de uma forma geral enfrentava neste período, que atualmente nos parecem inimagináveis para este continente tão idealizado. Dentre um destes podemos observar o problema da habitação para os trabalhadores. Engels vai colocar algumas questões que me parecem ainda estarem ai – dai o porque do marxismo ainda fazer algum sentido. A principal questão é a de que o salário dos trabalhadores não lhes condiciona pagar por uma moradia de qualidade, gerando assim um problema sério de habitação que de forma geral terá seu reflexo nos cortiços, muito populares durante o século XIX.

O ponto que se apresenta como o mais interessante na teoria de Engels-Marx é o fato de não terem como meta a filantropia, que ao que me parece é constantemente apontada e sugerida pelo tal sujeito (seus textos não são publicados no livro, infelizmente). Engels irá apostar em soluções mais efetivas, que não se baseiam na ideia de remediar, mas sim ir direto a causa da má qualidade da habitação; a exploração do proletariado pelos patrões, seja pelo baixo salário quanto pelo alto aluguel, que são condicionados pela forma capitalista de distribuição da riqueza.

Creio que a leitura deste livro se mostra bem válida para se pensar a habitação hoje e em especial a do século XIX. Apesar dos conceitos repetitivos do marxismo (como classes dominantes e luta de classes), os elementos propostos por esta dupla de teóricos se mostra como fundamental na história do pensamento humano - inegavelmente. Mesmo percebendo aquilo que algumas pessoas chamam de deturpação da teoria original destes alemães, seus resquícios são inegáveis no campo teórico. E no caso deste livro, vale a pena para pensarmos a questão da habitação hoje em dia, com as invasões, moradores de rua, construções abandonadas devido a especulação imobiliária, e por ai vai.


Já que o assunto é habitação, encontrei este link num fotolog1 que é um trabalho fotográfico sobre as construções abandonadas que existem na região de Detroit EUA:

http://blogs.denverpost.com/captured/2011/02/07/captured-the-ruins-of-detroit/

1E aqui a postagem feita do Fotolog: http://www.fotolog.com.br/bluelines/56826724

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A caminho de Los Angeles - John Fante

John Fante – ao lado de Jack London – me parece ser um dos primeiros autores estadounidenses a mostrar com tamanha maestria um Estados Unidos para além do sonho americano ou do sefl made man. Pelo contrário, vai mostrar um lado duro, pobre, difícil e sem beleza, ou como melhor diria Karl Heinrich Bukowski; esta vida que é feito um soco no estômago.

Este livro é o primeiro romance de Fante. Aqui já vai aparecer o personagem Arturo Bandini, que estará em formação, tanto pelo que ele está passando (aquela coisa chamada adolescência) quanto pelos contornos dados por Fante. Bandini vai se caracterizar como um sujeito que busca construir seus próprios conceitos, feito um Raskolnikov nos EUA durante os anos de 1930 ou começo de 1940. O interessante aqui neste livro é que o personagem se vê como um grande gênio ainda não descoberto, algo semelhante ao que vamos encontrar no “1933 foi um ano ruim”. Só que aqui em vez de ser um personagem esforçado e com uma incerteza dramática, ele se mostrará em algumas vezes cômico, porém muito esperto.

Não conheço muito bem a literatura estadounidense dos anos 1930, mas pelo que imagino das leituras que tive de Fante, este autor se coloca apresentando questões extremamente complicadas (por serem tabu) durante a época, especialmente nos EUA, país que não consigo deixar de ver como extremamente conservador. Por isso Fante se mostra tão original, pois revela um outro lado dos EUA que não é a corrida do ouro ou os imigrantes que trabalhando muito conseguem “vencer na vida”, que de alguma forma está inscrito em Godfather, onde temos a célebre frase, são só negócios.

Outro ponto que me parece mais forte neste livro do que nos outros que li (Sonhos de Bunkerhill e 1933 foi um ano ruim) é o mundo do trabalho. Elemento que depois será fortíssimo em Bukowski – vide o romance Factótum. Para quem leu o livro e talvez não saiba, ele vai mostrar qual já era o destino dos imigrantes nos EUA de então, fazer um serviço desagradável que ninguém quer fazer, limpar peixe por exemplo, como é bem ilustrado pelo menino no começo de Cidade de Deus. É bom lembrar que até pouco depois do fim da segunda guerra mundial, as Filipinas eram uma colônia dos EUA e Porto Rico ainda o é. Aqui vamos ter um novo contexto sobre a imigração que diferentemente do primeiro momento que se consistia em matar todos os índios e construir uma nova Europa, vai demonstrar uma busca mão de obra barata.

Num ponto creio que muita gente já se identificou frente ao Arturo Bandini descrito no livro, ele sente que está perdendo muito tempo naquela fábrica e aturando sua família por nada, que aquele seu tio não tem capacidade para entendê-lo pois não passa de um bronco, tudo que ele quer saber é de trabalho, como se isto fosse um remédio para curar todos os males do Homem. E ai fica demonstrada a força de Bandini em negar isto e buscar outro caminho.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Rocky Horror Picture Show

Eu não gosto de musicais, os considero muito chatos – não suporto mesmo. Mas, por uma série de motivos Rocky horror Picture show, que é um musical, está entre meus filmes favoritos. Creio que a estética do filme ajuda muito, mas não é só por isso.

O filme me remeteu a uma série de questões (em especial sobre a liberação sexual) que estavam rolando nos anos 70. Apesar de ter um certo ar cômico – o que torna o filme melhor ainda – o considero uma boa forma para pensar certas questões que ainda estão no ar. A exemplo do casamento em que os dois “heróis” estão. A música, assim como as falas, ilustram muito bem a imagem que temos muito bem desenhada: o sujeito trabalha numa empresa, namora a garota desde a escola, faz pouco tempo (não mais de cinco anos) que ambos terminaram a escola e seus amigos estão casando. A inveja de Janet por sua amiga recém-casada e o receio de Brad pelo casamento (damned!) ali estão, mesmo assim casar se mostra como algo natural. Ali também teremos dois cidadãos exemplares desenhados, que irão sendo rabiscados e desconstruídos ao longo do filme. Outro detalhe é que dois personagens que vão aparecer mais tarde já aparecem ali com outra roupa (o mordomo e Columbia).

Também vale lembrar que o que toca no rádio enquanto o casal se perde por entre o bosque é a renuncia de Nixon. Posso estar fazendo um exagero crítico, mas é bacana a idéia do discurso da renúncia de um presidente conservador como fundo para as mudanças que estão por vir. Ao que tudo me indica é nos anos 1970 que a liberação sexual vai ganhar mais força e ali vão ser ultrapassados certos paradigmas, dentre eles um amor mais solto, mais permissivo. Não há problema algum em deixar-se levar por uma vontade, nisto a cena cômica que ocorre entre o casal, que apesar de terem se deixado levar, tinham como grande preocupação se os “outros” soubessem, o que demonstra o tom da hipocrisia sexual que está inscrita em nós.

Apesar da peça original ter sua estréia em Londres, conheço apenas a adaptação para o cinema, que creio ser bem hollywoodizada, o que leva o filme a remeter-se a questões muito mais americanas, como o próprio professor que caça aliens, que deixa escapar em sua fala[1] sua origem alemã. E aqui vou me remeter para além do arquétipo do cientista maluco alemão e lembrar que após a segunda guerra houve um espólio por cientistas e tecnologias alemãs, e como aceitar esta tolerância após tão recentemente ter-se visto os horrores da guerra[2] (campos de concentração e bombardeio de cidades) e estes cientistas de alguma forma terem colaborado para isto? Assim como certa vez num filme – acho que era “o exorcista” – um sujeito bêbado numa festa vai olhar para um outro e fica lhe perguntando várias vezes em tom acusador se não era ele quem trabalhava para a Gestapo, o que mostra o tom ainda recente (para os anos1970) destes fantasmas. Creio que justamente num combate mais claro a estes costumes que tiveram seu auge na segunda guerra (nacionalismo, conservadorismo e outras questões) que algumas pessoas mais atentas se voltavam. E por que não colocar Rocky Horror como alguma forma de resposta a estes limites que se almejava ultrapassar então? Creio que além de ser um filme muito divertido e que nos dá vontade de sair dançando e cantando, ele traz uma série de provocações, em especial no campo sexual, que apesar de renovações (divórcio e casamentos para pessoas do mesmo sexo) ainda muito pouco conseguiu soltar-se de uma configuração tradicional, representada na obra por Brad & Janet.



[1] Em vez de dizer “and” para ele deixa escapar o alemão “und”.

[2] A segunda guerra vai marcar muito fortemente estes anos que vem a seguir, não por acaso temos no “The Wall” o personagem principal como filho da guerra, é ali que começa sua história. No caso de Dee Dee Ramone creio que fica mais claro, nascido na Alemanha filho de um soldado estadounidense com uma alemã, no livro “mate-me por favor” ele relata suas buscas por relíquias de guerra. Sobre esta aceitação de nazistas após a guerra alguns países como Argentina, Brasil e Chile aceitaram vários membros famosos até do Dritte Reich, que em alguns casos nem precisaram mudar de nome. No caso do EUA esta aceitação se deu também, em especial por meio de cientistas, como de alguma forma o filme de Tarantino “Bastardos Inglórios” vai mostrar – porém no caso devido a um acerto entre o oficial da SS e o governo estadounidense, que vai ilustrar a tolerância com o nazismo, especialmente que o personagem então era um caçador de judeus.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Noite - Erico Verissimo

Há pouco tempo venho mantendo algum contato com a literatura brasileira e em nada ela me decepciona. Fazia algum tempo em que eu estava curioso para ler Érico Veríssimo, pois quando pequeno lera um pouco de seu filho (as mentiras que os homens contam) e sempre escuto falar sobre clássicos como “O tempo e o vento”. Devido a minhas leituras para a faculdade acabei pegando um texto de Sandra Pesavento onde ela analisava este livro de Veríssimo[1]. Pelo que encontrei sobre o livro e até mesmo na própria parte de traz do livro, Veríssimo irá tentar mostrar a cidade como corruptora, de alguma forma noite neste caso seria uma analogia para com o lado sombrio, ou algo neste sentido ao que tudo indica.

Porém a impressão mais forte que esta novela me deixou foi a de que de alguma forma, o autor tentou demonstrar a vida – no sentido de ação – que ocorre ao longo da noite. Esta impressão se gravou principalmente devido a parte do hospital, pois ali ficam a falar deste caráter que percorre a noite. Apesar de haver algo mais em torno da história do que um sujeito na noite, com certeza este livro traz uma boa gama deste universo noturno. Para mim o caráter corruptor, maligno viria em segundo lugar e devido as impressões causadas em mim pela leitura de críticas.

Apesar de esta vida noturna estar de alguma forma no imaginário, seja por meio da literatura ou cinema, é algo extremamente muito difícil de ser desenhada. Aqui faço uma pausa/mistura com o desafio que se coloca ao menos para mim nas muitas vezes que escrevo, e lendo Kawabata percebi isto de forma mais clara. Sempre que escorrego meus dedos pelo teclado vou me remetendo a sensações e coisas praticamente impossíveis de descrever, aquela sensação única de uma risada numa conversa de bar, por exemplo. Mas como descrever o balanço da barriga, o esticar das bochechas que me parecem buscar as orelhas, o chacoalhar da risada violenta, o som que sai da boca, é difícil levar alguém a compreender o que pretendo dizer quando escrevo – se me permitem o linguajar coloquial.

Vários historiadores da cidade – a exemplo de Pesavento – me parecem tentar descrever estas coisas impossíveis, porém sem usar a mesma escrita que Veríssimo usaria por exemplo. Me perdoem os teóricos, mas muitas vezes não são mais do que delírios acadêmicos/intelectuais, feitos uma página inteira para descrever a dor provocada nos joelhos ao se levantar. E me desculpem novamente alguns historiadores, é aqui que a História se aproxima de alguma forma ou de outra com o romance. Por acaso você já imaginou a cidade medieval? É difícil. Muito mais fácil é imaginar a dos anos 1930-50 (suposto tempo em que se passa a obra), e penso até onde obras como esta não influenciam este nosso imaginário da cidade a noite.

Neste sentido sinto que esta obra de Veríssimo vai fundo neste viver urbano noturno. Não por acaso a história começa quando o dia termina e acaba quando o dia começa. Nas primeiras páginas do livro dá para imaginar a correria das pessoas indo para algum lugar, as famílias reunidas quando ele passa pelo bairro pobre, o bar fervendo de gente, o hospital exalando desespero (creio que eles fazem isso até de dia), e a rua como que ganhando calor e vida ao raiar do sol.

Desta forma inacabada e num texto pouco pensado para ser lido - com prazer - , lhes deixo.



[1] O artigo em questão se encontra no livro: Imagens urbanas :os diversos olhares na formacao do imaginario urbano /Celia Ferraz de Souza, Sandra Jatahy Pesavento organizadoras. -Porto Alegre : Ed. da UFRGS, 1997. - 292p.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Novo mundo - Emanuele Crialese (dir.)

Durante o século XIX a política de imigração (em especial imigração européia) para as Américas fora muito forte. A quantidade de imigrantes que chegaram nos EUA fora maior que a de todos os outros países americanos somados juntos. Aqui na América do Sul dois países conseguiram lograr o êxito desejado então, não por acaso até hoje são chamados de “os europeus da América do Sul”: Argentina e Uruguai. Entrando mais no caso da Argentina que conheço um pouco mais, o que tivemos fora o seguinte, mataram o máximo possível de povos originários (índios) e realocaram levas de imigrantes. Esta política não fora muito diferente da que ocorrera nos EUA (ou Austrália também), contanto que é só lembrarmos da conquista do oeste.

Além deste ponto que podemos no mínimo chamar de cruel, onde se massacra os povos que ali viviam (seja extirpando a sua vida biológica ou lhe obrigando a uma cultura europeizada) e tentando transferir um pedaço da Europa para outro lugar, “sem civilização”. Não esqueçamos aqui da colonização da África também. O filme vai retratar a vinda do imigrante para o novo mundo. A cena de abertura é, na minha humilde percepção, muito bem pensada. Primeiro podemos ver os dois sujeitos andando por aquele campo pedregoso, depois a câmera afasta mais um pouco e de novo, quando a câmera chega ao ponto máximo de distância a tela quase que se pinta de branco, de tão pedregoso que era aquele campo. Já havia lido a respeito da vinda de italianos. Sei que muitos vieram da Sicilia, parte menos fértil – até hoje – da Itália, o que faz dela a mais pobre também. Várias pessoas que conheci que foram para a Itália me disseram que quanto mais ao sul, mais pobre é a Itália. Apesar de se passar em 1904, a imigração ainda estava em alta e a Itália ainda não estava unificada – vide o dialeto falado no filme.

Fica claro a aposta em uma nova vida, uma vida mais rica materialmente. Se pegarmos os propagandas que os governos enviavam para a Europa poderemos ter uma noção do que fora na época esta idéia da imigração. Gosto de ver material sobre o assunto, pois me intriga fortemente o que leva um grupo tão grande de gente a abandonar sua terra natal, indo para tão longe.

O que não podemos esquecer, e creio que o filme não deixa, é que esta política de imigração se baseava em um preceito principal, o da eugenia. Se acreditava que com a introdução de europeus o pais teria uma melhor população, que iria condicionar uma melhor situação – cultural, econômica, política[1]. Isto se dava por dotes físicos/genéticos, onde o homem branco europeu era o melhor exemplar de um sujeito de luzes. Em último lugar estavam os negros, onde sua musculatura só demonstrava o quanto deveriam ser limitados ao trabalho braçal[2]. Assim como estes povos não-europeus tinham a índole e a moral fraca (daí de os índios serem preguiçosos).

Ao estudar a questão da imigração no Brasil não havia me atentado para o fato de que na época os EUA ainda não eram o que vem ser após a 1ª e 2ª guerra, e que esta questão eugênica vai permear todo este mundo chamado ocidental. Para tal o filme re-faz uma excelente ilustração da chegada dos imigrantes a “terra da liberdade”. Ao chegarem nos EUA (Ellis Island) os imigrantes passavam por uma espécie de triagem, onde eram analisados aspectos físicos de saúde, como a tradicional olhada na boca para ver se ali se encontram todos os dentes, até testes de “inteligência”[3] que mais se assemelhavam a jogos de tabuleiro. E aqui sejamos sinceros, se ninguém lhe diz como são as regras, você não vai “jogar direito”. É importante lembrar também que os imigrantes que não se encaixavam no perfil exigido eram mandados de volta, independente de todo o resto da família ter conseguido passar no teste. Se não me engano (perdoem-me a imprecisão) aproximadamente 2% dos imigrantes voltaram. Okay, pode parecer pouco, também imaginei isto ou ouvir o dado, mas de 10 pessoas 2 nunca viram a América e tiveram que voltar, depois de meses no navio e passar por todos exames foram mandados de volta. Agora imagine quanta gente é 2% de 5,3 milhões, que é o numero de imigrantes italianos que conseguiram entrar nos EUA. Não esquecendo das vastas levas de irlandeses, alemães, judeus, poloneses... seguramente o numero sobe.

Creio que se assistirmos o filme pensando estas questões que permeavam o século XIX, ele pode ser uma boa ferramenta para entendermos como ocorrera este processo de imigração, que parece ter ocorrido tão bem quando lemos algo sobre o assunto. Além de claro tanger a questão racial, que ainda hoje repercute seu eco.

Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=2QpUCiLV8xw

Aqui tem uma sinopse e ficha técnica do filme: http://tvcultura.cmais.com.br/mostra?d=2011/07/01



[1] Algo aqui me leva a teoria do capital humano... não sei ao certo, pode ser apensas um comichão bobo.

[2] Para ver mais detalhadamente esta questão de raças e eugenia, sugiro o livro da Antropóloga Lilia Moritz Schwarcz “O espetáculo das raças”.

[3] Os: Se alguém souber como medir isto, por favor me diga como! (obs: não me venha falar do teste de Q.I.).

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Espelho das cidades - Henri-Pierre Jeudy

Quem já passou pela experiência de viajar a turismo talvez tenha em algum momento percebido a forma como se constroem cidades espetáculos. Ou melhor como há bolhas dentro das cidades construídas exclusivamente para turistas. Seja com uma museificação do espaço, levando a petrificação do lugar (Paraty no estado do Rio), ou seja com a criação de cidades cenográficas (Gramado, Rio Grande do Sul). Atualmente é prática comum. Blumenau, SC, cidade onde nasci e moro, não se pretende de forma diferente – e creio não ser a única – em se montar de forma espetacular[1], seja por uma petrificação museificante ou por um esforço em se criar uma cidade cenográfica. Em geral estas políticas voltadas ao turismo seguem uma tendência de aeroportos e shoppings centers – iguais onde quer que você vá.

Além destas políticas de museificação e cidade cenográfica, há também as famosas e elogiadas políticas de revitalização. Geralmente o local escolhido é próximo a um porto, as casas estão naquilo que chamamos de péssimas condições e a população é de baixa renda. Normalmente ficamos muito contentes com estas políticas do século XIX renovadas, que nada mais fazem do que expulsar a população pobre/indesejada dali a transferindo para outro lugar, mesmo que a prefeitura não despeje os habitantes os aumentos na região revitalizada (impostos, aluguel, preços de mercadorias...) fazem isto sem que pareça uma repetição da demolição do cabeça de porco[2].

O que muitas vezes esquecemos como turistas é perceber os usos políticos contidos nestas representações arquitetônicas, que são mantidas ou, reavivadas com a construção de réplicas que remetem a algum tempo idealizado. Em geral podemos perceber este uso político da imagem trabalhada de uma cidade refletida não só no turismo como, também, na própria identidade da população. Em geral no Brasil e me parece que para a América Latina de forma geral também, há uma exaltação por uma Europa idealizada, não por acaso boa parte dos destinos turísticos remetem a esta Europa idealizada, Gramado, Canela, (RS) Blumenau, Pomerode (SC) entre outras são cidades que não escapam a esta regra. Querendo ou não, boa parte do turismo para Argentina e Uruguai se dá por esta sua fama de “europeus da América do Sul”. Este investimento na imagem da cidade reflete de alguma forma na identidade da população, desde ares daquilo que podemos nomear de esnobes, ou até mesmo xenófobos.

Campos do Jordão (SP) entra também nesta trincheira do investimento turístico, a cidade cheira a turismo, me quedo a pensar o que aconteceria se do nada, como que numa magia, os turistas deixassem de visitar a cidade? Não sou especialista no assunto, mas creio piamente que seria um desastre...

Para além destas cidadezinhas pequenas que praticamente vivem do turismo (que se mostra numa renovação daquelas cidades que vivem ao redor de uma mina ou fábrica) temos o turismo para as grandes cidades. De forma geral estas grandes cidades vão se vendendo enquanto redutos de cultura, e aqui não posso deixar de citar a virada cultural de São Paulo, que por sinal deu muita popularidade para o prefeito da cidade então – só para lembrar do uso político.

Para finalizar, temos cidades passando por políticas semelhantes em seus espaços, considero vital olharmos para esta movimentação. Peço por um esforço em olharmos para além do bem e do mal, deixarmos de ver com aquele olhar simplista e “inocente” de que investindo no turismo virá dinheiro para a cidade e ponto final, acabou ai o assunto. Poderíamos pensar também que este tiro possa sair pela culatra já que custa caro investir na estrutura julgada necessário para o turismo (ouvi ai alguém sussurrando copa ou olimpíada?), talvez pensarmos na população que já está ali e será que riqueza se dá unicamente pelo acumulo de capital? Podem pensar que sou contra este investimento cultural que ocorre de forma geral nas cidades grandes, mas creio que poderíamos lembrar antes da situação cultural em outras cidades, como estão as movimentações artísticas em Punta Del Este e Campos do Jordão? O que tem para além do espetáculo? O que se esconde atrás do papelão que cobre as cidades cenográficas que tanto são fotografadas? E outras coisas mais. Além do mais, boa parte da população vive em cidades e estas passam por processos semelhantes, será que já não é motivo de sobra para pensar a cidade?

Aqui tem a apresentação do livro, escrita por Paola Berenstein Jacques:

http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/resenhasonline/04.042/3156



[1] Me perdoem o trocadilho, para deixar claro, me refiro sim ao conceito de cidade espetáculo.

[2] Aqui valeria lembrar o trecho do livro do historiador Sidney Chalhoub chamado Cidade Febril que trata da demolição dos cortiços no Rio de Janeiro e de outras políticas modernizantes para com a cidade – e a população urbana.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Kurt Cobain: Fragmentos de uma autobiografia - Marcelo Orozco

          Para aqueles que se interessam pelo som da banda Nirvana, por Kurt Cobain e/ou por entender um pouco mais das composições da banda, “Kurt Cobain: Fragmentos de uma autobiografia” é uma boa pedida.

          Sem querer extrapolar as letras ligando-as a filosofias ou teorias sem cabimento ou ainda cair na superficialidade de “curiosidades” e polêmicas em torno de um artista ou banda, este livro de Marcelo Orozco é uma bela obra para pensar as confusas e fragmentadas composições de Cobain. Transitando numa linha tênue entre um estudo artístico e uma biografia, Orozco vai às letras e ao contexto de sua composição para pensar o que estes fragmentos tão subjetivos e poéticos carregam dos sentimentos, experiências e conflitos do vocalista do Nirvana. O livro tem grande força ao não isolar as letras, ensimesmando-as, conectando temas, frases e acontecimentos.

          O autor analisa álbum por álbum, letra por letra da banda, inclusive em músicas covers, para entender o que as levou a comporem o repertório da banda. Mesmo as músicas que não saíram em álbuns, que foram tocadas somente ao vivo ou demos gravadas em fitas, são trazidas e analizadas neste livro. 

         Orozco escreve nas primeiras páginas as condições de formação e desenvolvimento do Nirvana, faz uma breve cronologia, ano a ano, dos acontecimentos que marcaram a carreira da banda e de seus integrantes. Mesmo elegendo Kurt como personagem principal desta história, o livro apresenta as ligações de Cobai com sua esposa, Courtney Love, com Chad Channing baterista do Nirvana até o primeiro álbum (Bleach), com o baixista Krist Novoselic, Dave Grohl (baterista a partir do álbum Nevermind) e muitos outros personagens (humanos ou não...) que fizeram da vida e das composições de Kurt o que são. 

          Obviamente, Orozco não traz as respostas a todas as perguntas em torno da figura de Kurt Cobain. Porém, faz um grande esforço para reunir informações que o permitam pensar tais “fragmentos de uma autobiografia” de forma coesa e interessantíssima.


sexta-feira, 1 de julho de 2011

O Grupo Baader Meinhof - Uli Edel (dir.)

O filme trata de contar os primeiros anos (o grupo existiu até 1998) do grupo alemão Rote Armee Fraktion, mais conhecido como grupo Baader-meinhof. O bacana do filme é que ele não esquece de trazer algumas questões que eram o assunto do dia na época, como a Alemanha repartida entre os principais países vencedores após a segunda guerra. Do lado ocidental temos uma Alemanha altamente influenciada pelos EUA, que já estavam no Vietnam – é deste lado do muro que surge o grupo. Não podemos esquecer também todo o clima de mudança que estava ocorrendo na época (espero que 1968 diga alguma coisa). Para quem não sabe a Alemanha tem uma série de questões desagradáveis, cito aqui a título de exemplo a questão educacional deles, onde os alunos passam por uma triagem aos 10 anos de idade que irá influenciar mais tarde se ele irá fazer uma faculdade ou um técnico, definindo em grande peso possibilidades financeiras, citando o assunto a grosso modo[1]. Havia ainda – e isto é de forma comum para o mundo ocidental – um sistema penitenciário muito duro, falo isto com foco nos reformatórios (já que muitos integrantes do grupo vinham daí). Bem, pesquisando um pouco e assistindo o filme[2] creio que ficará mais claro do que se eu tentar explicar.

Neste contexto organizações que apostam no meio armado como saída para fins políticos aparecem: Frente Popular de Libertação da Palestina, Exército Vermelho Japonês, Tupamaros, Montoneros, além da recente guerra da Argélia e os movimentos anti-coloniais e a revolução Cubana, dão um pano de fundo para o surgimento de Baader-meinhof na Alemanha (ocidental).

De forma geral a primeira coisa que se faz ao se falar de terrorismo, em especial quando se discute algum destes grupos inseridos num período de guerra fria, é escolher um lado e acusá-lo ou defende-lo até o fim, algo como: “Eles estavam certos”, “Eles estavam errados”. O filme não vai por este caminho, pois claramente mostra o autoritarismo de Andreas Baader, por exemplo, assim como as terríveis situações de autoritarismo do próprio governo. Aqui creio ser importante superar esta herança de guerra fria que temos em nós e propagamos muitas vezes, e proponho entender o assunto para além de bem contra o mal (ou se quiserem de direita contra esquerda). Nisto li uma entrevista do diretor do filme, onde ele prezava por um ponto importante, e faço coro a isto. A questão que me soa mais central, é pensar o que leva alguém a largar toda monotonia rítmica de sua vida mudando-a completamente para pegar em armas e/ou colocar bombas? Porque uma famosa jornalista vai abandonar sua carreira para se tornar uma guerrilheira urbana? Bem, aqui quero lembrar do Estado policial que se tornava a Alemanha no período. Não esqueçamos que a Alemanha formava a fronteira com a cortina de ferro, por isso estava próxima ao “inimigo”. Certamente sob este pretexto inúmeras medidas de exceção vinham se tornando regra. Isto acaba gerando desconfortos que levaram ao surgimento de vários grupos, com práticas variadas, entre eles o Baader-Meinhof. E aqui, apesar de soar algo muito diplomático, é importante dar espaço e autonomia para que as pessoas possam ter maior (acho complicada esta palavra) liberdade, e aqui não falo em restrito ao Estado, sempre apontado por todos os dedos, mas a própria preocupação que me ataca constantemente nos e-mails que recebo sobre a união civil gay, por exemplo. O que me interessa, qual importância tem para mim saber o que o outro faz na cama? Porque eu tenho que mandar e-mails dizendo como as pessoas devem ser?

Certamente, e aqui me firmo sobre um senso comum, tais práticas tomadas pelo grupo alemão foram condicionadas por um certo desespero. Assim como os grupos do terceiro mundo, que escolheram tal atitude como um meio de pedir atenção. Muitas vezes ela se mostrando como a resposta mais direta e imediata, apesar de nem sempre ser a mais eficiente, porém muitas vezes apontada como única forma[3].

*

Considero interessante e válido se debruçar sobre esta vontade de futuro que se mostra firme desde a revolução francesa. Podemos observar, tanto num grupo ou n’outro uma vontade para o futuro, o planejamento de como deverá ser, como temos que ir construindo. Isto está claro em partidos políticos, igrejas, a grande maioria das ideologias (tanto da esquerda quanto da direita) e as teorias totalizantes. Não gosto deste desejo de criar um caminho, feito uma grande rodovia, por onde todos devem passar, frases como “o caminho do bem ou do mal, está comigo ou contra mim, ou eles ou nós”, me soam como vontades totalizantes. Este tipo de discurso já não consigo mais acreditar. Por isso entendo os movimentos extremamente focados que ocorrem hoje, a exemplo da luta contra homofobia, acabam se tornando mais eficientes do que toda uma teoria que vai abarcar o máximo de coisas, como se fosse o máximo de tijolos para construir uma estrada para a liberdade. E por isso digo que somos vítimas da guerra fria, pois acreditamos que a escolha de uma teoria totalizante, uma teoria que se propõem dar conta do todo, vai levar a generalizações e esta idéia de guerra na vida civil, ocasionando este “eles contra nós”, esta bipolaridade, que encontramos em tantas esferas. E deixo uma pergunta sobre esta bipolaridade, qual diferença havia entre uma fábrica da Alemanha Oriental em relação a Alemanha Ocidental? Nenhuma significante, isto é certo.

Trailer:


[1] Conheço pouco do assunto e ele mereceria no mínimo um post, sobre o sistema educacional se não me engano, esta divisão na Alemanha das escolas em três tipos datam do século XIX, apesar de todo um mote de discussões sobre o assunto e a autonomia de cada estado (o que poda a possibilidade de simples generalização), ainda assim este sistema gera muitas complicações.

[2] Recomendo também o filme “Z” de Costa Gavras.

[3] E aqui vale a pena recordar a cena tensa de Batalha de Argel, onde preparam uma bomba para colocar em locais públicos, gerando também um desconforto para quem vai colocar a bomba sabendo que irá ferir pessoas.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

O século XIX é interessante por todas as questões que estavam no ar durante o período. A ciência, me parece, surgia como a grande aposta do dia, não por acaso hoje a ciência dá o tom para nossas disputas em torno da verdade – e neste ponto Nietzsche é certeiro ao anunciar a “morte” de Deus e seus “assassinos”.

Dostoiévski está claramente inserido neste contexto. Se sabe que ele recebera uma educação formal européia-iluminista (ou vocês acham que desde sempre se estudou matemática, geografia, história, física, química, na escola?) apesar de ser marcado por uma forte tradição religiosa, que na época se encontrava em maior atuação. Crime e castigo deixa por entre suas páginas escapar um pouco do “espírito da época”, em especial no que vai tanger a Rússia e sua particular situação. O período em que viveu Fiódor é considerado um dos mais produtivos para Rússia até então, não por acaso que boa parte dos escritores clássicos russos são deste período. Mesmo com uma minoria absoluta freqüentando universidades, a população universitária aumenta significativamente neste período. Algumas coisas que esta edição da Editora 34 traz em notas de rodapé e no prefácio de Bezerra colaboram em muito para perceber estas minúcias deixadas ao longo da história.

Um fato que me ronda já desde antes de ler este romance é a má impressão que o capitalismo deixou em Fiódor Dostoiévski, onde este sempre aparece de forma degenerada. A figura deste russo é muito interessante, pois estava atento ao que ocorria, mas nem por isso se deixava seduzir pelo que se papagaiava nas ruas. Um caráter marcante ao longo do livro é a presença da cidade, e aqui faço repito palavras de Adriana Mattos de Caúla[1], afirmando que a cidade aparece como coadjuvante ao longo da história. E isto até então não havia percebido, como a cidade está sempre ali na obra de Dostoiévski e como a cidade (São Petersburgo) é narrada de forma repugnante em Crime e Castigo, principalmente pelo cheiro ruim que existe na cidade durante o verão, devido aos pântanos – fato que já havia sabido por outros lugares – e alguns tipos urbanos. O corredor que o leva para a delegacia é um lugar que o deixa nauseabundo. Os tipos urbanos que Dostoiévski narra, essas pessoas que percebemos na rua apenas quando caminhamos, também são criadas e descritas de tal forma impressionante. Crime e Castigo me parece em grande sintonia com Notas do Subsolo, ambos os personagens são sujeitos muito próximos daquilo que chamamos muitas vezes de “louquinhos” e confesso que adoro estes tipos criados por Fiódor. O livro conseguiu me colocar em tal estado “psicológico” que poucas vezes consigo alcançar. A atmosfera em que se desenrola a história é algo muito envolvente, para tal basta assistir a pickpocket[2] ou Nina[3], ambos filmes que são adaptação da obra de Dostoiévski, que mesmo sendo em outro suporte conseguem nos levar a uma sensação se aflição tal como poucas obras conseguem.

O livro se preza por uma questão que dificilmente conseguimos discutir sem estarmos amarrados as correntes habituais. E para mim ai está a originalidade deste russo, por conseguir desenvolver caminhos que transitam por lugares pouco habituais, em especial se levarmos em consideração os limites de seu tempo, e digo isto apesar de não acreditar que neste escritor se possa encontrar algum manual da vida, e este é o fato que me faz ver nele para além de uma história que me entretenha – fato cada vez mais difícil de ser visto por mim.



[1] O artigo de Adriana Caúla se encontra no livro “Corpos e Cenários Urbanos”.

[2] Filme de Robert Bresson, de 1959, e apesar de não ser uma adaptação tão clara, traz inúmeras questões e referências diretas ao livro.

[3] Filme dirigido por Heitor Dhália de 2004, é também uma adaptação mais “moderna” da obra, porém este filme é claramente um pouco mais próximo da obra.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Brazil - O Filme


Conheci este filme por meio de um cartaz, onde um sujeito era engolido pelo prédio (este). Depois de alguns anos li um artigo que tratava de filmes onde a cidade era coadjuvante na história, dentre a lista de filmes (praticamente todos de ficção científica) estava Brazil. Me deu vontade de assistir e o vi.

Confesso que seu roteiro não segue uma linha reta, como estamos acostumados, mas isto tão pouco fora o problema. Há uma forte crítica temperada com humor negro no filme. O nome Brazil se dá por tocar uma música brasileira, que conhecemos bem, cantada em inglês. A idéia era contrastar uma música tão bonita com algo tão esquisito e feio, como uma cidade pode ser.

O filme é ambientado num futuro próximo, onde o controle do estado é enorme. A presença da burocracia é forte, podemos perceber isto praticamente pelo mesmo uso que Kieslowski faz no seu curta “O escritório”, onde se mostra o estômago da burocracia filmando uma repartição publica e seus tentáculos com a constante aparição de papéis. Nisto a figura de um carimbo carimbado num papel indicando que ele pode ser carimbado (deu para entender?) pode ser uma forma prática de ilustrar o que é burocracia. Não por acaso um dos personagens do filme, que fugia da burocracia, é engolido por ela mais tarde, não conseguindo se livrar dela e dissolvendo-se no meio de papéis.

Creio que estas questões envolvendo um Estado forte e o controle sobre a população, são clichês das ficções científicas.

Outra questão que o filme traz é a constante preocupação estética das pessoas. Uma das personagens está constantemente realizando cirurgias plásticas para ficar mais jovem, chegando ao ponto de aparecer de uma forma diferente em cada momento do filme, criando dificuldades em ser reconhecida por seu filho. É algo que me chamou atenção, pois nos momentos em que esta personagem em especial aparece, percebemos toda uma tentativa em demonstrar a futilidade de uma alta sociedade - talvez a palavra certa seja apatia.

O filme, como várias ficções científicas, me parece trazer as angústias do presente, pois se trata num futuro próximo, e nosso modo de pensar progressista (a tradicional linha de evolução), as coisas só vão se tornando mais “evoluídas” e por isto mais críticas. Por outro lado, o que podemos imaginar também é que esta forma de elevar ao quadrado, possa ser uma forma de tornar o problema mais visível, é uma franca maneira de torná-lo mais gritante, especialmente pelo fato de lidarmos com uma série de coisas todos os dias que justamente por isso acabam ganhando o tom de normalidade.

quinta-feira, 31 de março de 2011

A Escola dos Annales: (1929 - 1989) A Revolução Francesa da Historiografia - Peter Burke

Algo que me impressiona é o interesse das pessoas pela História. Basta ir numa banca de revistas para ver quantas revistas existem sobre História. Isso me agrada por vários motivos, entre eles o de que o historiador sempre vai ter emprego, e isso é bom saber quando se está terminando um curso de História. Neste interesse todo pela História várias pessoas me contam que são apenas curiosas e algumas vezes complementam me questionando a respeito de algum bom livro que traga um panorama geral da História. Na maior parte das vezes fico pensando nos livros de “História Geral” onde se conta uma história enorme em tão pouco tempo ou páginas. E quando é um livro muito grosso, sempre é um livro sobre o geral. Com o surgimento da internet onde fatos históricos são encontrados facilmente não vejo muito sentido em se ler tanto estes livros grossos de “História Geral”. Os fatos sozinhos não ajudam em muita coisa, o que é mais interessante é a discussão a respeito daqueles fatos, discussão que realizamos a partir de bases teóricas. Pensando nisto este livro de Peter Burke, renomado historiador inglês casado com uma brasileira, traz um apanhado geral do que temos no momento daquilo que podemos chamar de mais atual no campo teórico da História. Em resumo traz um pouco sobre a Escola dos annales.

Para quem não sabe a escola dos annales não foi uma escola no sentido comum que entendemos a palavra. Foi escola no sentido de uma “linha de pensamento”. Diferente da escola da Bauhaus, nunca teve uma sede física, é em realidade uma revista. Nesta revista dois franceses (Marc Bloch e Lucien Febvre) romperam com a linha tradicional positivista (onde o que importava eram os fatos, em especial os ditos “grandes fatos”) e deram uma forma mais concisa para o que vem a ser um trabalho de História hoje. Lógico que atualmente já passamos por mudanças, e Burke traz os desdobramentos que a annales acabou gerando.

O interessante, e Burke traz isso neste livro, é que a França atualmente é a Meca da História, em especial graças a forte tradição francesa existente após os annales, mas até a consolidação desta escola e do grupo francês, a grande referência era a Alemanha. Leopold von Ranke fora o grande nome da historiografia alemã, sua História era positivista, quer dizer, ele fazia aquela História chata que infelizmente todos conhecemos, fatos, nomes, datas... Em resumo é uma História que não traz análise, ou quando traz não são análises profundas, e em geral sob argumentos moralistas. É colocado que esta mudança não ocorre na historiografia alemã principalmente pela sua forte tradição, que dificulta as mudanças. Foi assim que a França, um país de segunda importância na História vai tomando o lugar de maior importância.

O bom deste livro é o fato dele ser válido tanto para historiadores, quanto para não historiadores. Contanto que é colocado ao final do livro um glossário que traz certos termos específicos da História. Devo contar aqui de que meu contato com a escola dos annales muito me empolgou na época, pois até então meus conceitos a respeito do estudo da História eram um pouco “nublados” e pior do que isto, um tanto quanto amarrados. Gosto de dizer que os annales deram um “sopro de ar fresco” na História. Lembrando de que em geral o livro de Burke trata da historiografia francesa, não desconsideremos que cada país tem sua historiografia, pois lógico, também possuem seus intelectuais.